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Mostra Direitos Humanos: a palavra do curador

Luiz Zanin Oricchio

10 de dezembro de 2007 | 09h57

Pedi ao Giba Assis Brasil, curador da mostra de filmes sobre Direitos Humanos, algumas palavras sobre o projeto e a escolha dos filmes. Por motivos alheios à sua vontade, o e-mail não pôde ser respondido a tempo para que as declarações fossem incluídas na matéria que escrevi para o Caderno 2. Sorte do blog, que fica com exclusividade para as palavras de Giba. Leia abaixo.

“Quando a Secretaria de Direitos Humanos me convidou para fazer a curadoria da Mostra, em final de julho, eu fiquei um pouco assustado, porque nunca tinha feito nada parecido, e teria que suceder ao Amir Labaki, que além de ser meu amigo é um cara que vive viajando e assistindo a festivais no mundo inteiro. Mas aí eles me explicaram que a idéia era ter uma curadoria rotativa, feita por pessoas de diferentes regiões brasileiras a cada ano. Me pareceu que fazia sentido.

Trabalhei o tempo inteiro em conjunto com a Cinemateca Brasileira (especialmente com a Natasja Berzoini, que fez a coordenação de produção) e, no processo, tive várias reuniões com o pessoal da SEDH. No fim, viajei
pouco para selecionar filmes. Só fui ao Festival de Piriápolis, em agosto.

Chegamos a cogitar de ir a La Paz ou Bogotá, mas terminamos concluindo que não valeria a pena.

Tivemos algum apoio das embaixadas (o Ministério das Relações Exteriores é co-promotor do evento), que me puseram em contato com organismos de difusão
de cinema em cada país e me fornecerem listas de filmes possíveis e/ou de contatos dom realizadores ou produtores.

Mas, basicamente, a primeira triagem foi feita pela internet. Procurei acho que todos os festivais e mostras de cinema que aconteceram nos últimos 12
meses na América Latina. Em cada sítio, eu lia todas as sinopses de filmes,separava os que me pareciam que tinham a ver com o tema geral da mostra.

Mandava os endereços, ou a informação disponível, pra Natasja, que entrava em contato com os produtores e pedia que mandassem um DVD pra mim. Entramos
em contato com uns 120 filmes, e eu assisti entre 80 e 90, de onde saíram os 37 selecionados.

De acordo com a SEDH, o foco deveria ser o Mercosul, mas no seu sentido mais amplo, incluindo não apenas os países membros (Brasil, Argentina, Uruguai,
Paraguai e Venezuela), mas também os estados associados (Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru) e também o “estado observador” (México). Ou seja:
deveria haver pelo menos um filme de cada um destes países.

Como se tratava de uma segunda Mostra, um ano após a primeira, deveríamos apontar claramente para uma intenção de permanência: a partir de agora,
teremos essa Mostra todos os anos. Por isso, deveríamos selecionar apenas produções recentes. Estabelecemos como aceitáveis filmes a partir de 2005,
mas afinal terminamos abrindo 3 exceções para produções de 2004. E, claro,uma exceção histórica: o filme do Sérgio Muniz que, apesar de ter sido
realizado há mais de 30 anos, permanecia inédito, e num certo sentido inacabado mesmo, até 2007.

Quanto ao gênero, sabíamos desde o início que a maior parte dos filmes selecionados seriam documentários, mas havia uma orientação para tentar ampliar a presença da ficção. No fim, não conseguimos ampliar muito: de 29 doc + 1 fic ano passado, chegamos a 33 doc + 4 fic esse ano.

Desde o começo, ao reler a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU,que é o documento base que justifica a Mostra, me ocorreu que uma seleção
“numerada”, em que cada filme dialogasse de alguma forma com um dos artigos da DUDH, seria uma idéia interessante, ainda que com alguns riscos. Deu
trabalho, mas acho que conseguimos uma seleção que representa a amplitude de temas de que a DUDH trata, sem cair no simplismo de reduzir cada filme a uma
frase.

Em um determinado momento, apareceu a possibilidade de contar com o filme mais recente do Solanas. Mas logo percebemos que juntar a (por enquanto)
trilogia seria um atrativo mais interessante. Tentamos inclusive atrair o próprio Solanas para ser o grande convidado especial da Mostra. Mas a recente campanha presidencial o deixou muito esgotado, e ele foi tirar uns dias de férias na Europa.

Pensando os 3 filmes do Solanas como uma homenagem especial, teríamos mais 30 produções para compor os 30 artigos da DUDH. Mas o processo de seleção é
mais dinâmico do que isso, e dos 33 filmes previstos acabamos ficando com 37.

Isso porque o “Matar a todos”, que logo foi negociado como filme de abertura geral da Mostra, pareceu mais claramente associado ao preâmbulo da declaração (“A Assembléia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações…”). E também porque o artigo 25 na verdade trata de dois temas (“direito ao bem-estar” e “proteção à infância e adolescência”), cada um deles passível de diálogo com diferentes filmes. Da mesma forma que o artigo
1º (“universalidade” e “fraternidade”). E finalmente porque o artigo 2 (“não à discriminação”) trata de um tema tão amplo e tão importante hoje em dia (e que, se não cresceu em importância, certamente cresceu em amplitude desde 1948) que merecia pelo menos duas abordagens diferenciadas: uma racial e
outra de orientação sexual.”

Giba Assis Brasil

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