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Mostra de Gostoso

Luiz Zanin Oricchio

17 de novembro de 2015 | 11h09

São Miguel do Gostoso/RN
As piadas com o nome são muitas, e todas fazem sentido. São Miguel do Gostoso, paraíso tropical situado a 110 quilômetros de Natal, merece o nome que tem. A mostra de cinema que abriga há três anos é a mais gostosa entre as 250 congêneres ofertadas pelo calendário brasileiro. E a “sala de cinema”, onde se dão as projeções da mostra competitiva, é a mais bonita do mundo.

De fato, o telão (4m x 12 m, com projeção em 2K) é armado na praia. Há cadeiras de frente para a tela, mas boa parte da população se deita mesmo sobre toalhas ou esteiras estendidas na areia para ver os filmes com todo o conforto. Acima das cabeças, um cinematográfico céu de estrelas; durante as sessões, o frescor da brisa, que produz até um friozinho de ar refrigerado. E, se você prestar atenção, por trás do som do filme, percebe o rumor de fundo que vem do mar. Existe sala para rivalizar com esta?

Com todos esses trunfos, a Mostra de Cinema de Gostoso, em sua terceira edição, vem firmando seu nome nos meios cinéfilos nacionais. Mas não seria nada se, além dos atrativos naturais, realçados pelos organizadores, não tivesse por trás uma direção e curadoria consistentes, ambas lideradas por Eugênio Puppo, dublê de cineasta e promotor cultural. Esse paulistano conheceu São Miguel do Gostoso no início dos anos 2000 e se apaixonou pela cidade. Ao mesmo tempo, notou que o paraíso estava ameaçado. Gostoso, como tantos outros locais privilegiados do país, corre o risco de ser vítima de suas próprias qualidades, ao despertar a cobiça de especuladores e predadores de todas as espécies e plumagens.

Sobre esse tema, Puppo dirigiu um documentário exibido no Festival É Tudo Verdade. O doc São Miguel do Gostoso partia de uma pergunta incômoda: “como mostrar aquilo que está prestes a desaparecer?” Por sorte, Gostoso não desapareceu. E está estranhamente preservado da predação imobiliária, pelo menos por enquanto. Com seus nove mil habitantes, sobrevive do turismo, em especial o esportivo. Suas maiores atrações são o mar de águas puras e o vento constante, que o torna meca de praticantes de kite surf e wind surf. É curioso ver como não apenas pousadas, mas vários bares e restaurantes da cidade se adaptaram para abrigar velas e pranchas enquanto os esportistas bebem e se alimentam. Compõem todo um panorama diferente.

A este ambiente veio se agregar a Mostra, com uma dupla preocupação de apresentar as últimas novidades do cinema nacional a uma população sem acesso ao cinema e formar quadros para atividade cinematográfica. A Mostra é ancorada nessa escola de formação que se dá ao longo do ano e é voltada para a população jovem de Gostoso. “Quando cheguei aqui conheci um jovem que trabalhava para os turistas estrangeiros durante a temporada. No ano seguinte, procurei por ele e soube que havia entrado para o tráfico de drogas”, diz Puppo. Pensou então numa maneira de quebrar esse ciclo e o cinema lhe pareceu o caminho possível. Trata os jovens sem qualquer paternalismo e é rigoroso na maneira como coordena sua formação cinematográfica.

O resultado bate na tela montada na Praia do Maceió para a mostra competitiva. Os jovens que frequentaram os cursos e oficinas fundaram o coletivo Nós do Audiovisual e rodaram este ano quatro curtas-metragens que concorrem entre si. De certa forma, são os filmes mais importantes apresentados em Gostoso, pois expressam a cultura local e simbolizam o enraizamento dessa iniciativa na comunidade. “Tudo funciona em conjunto”, diz Puppo. “Se os cursos não existissem, a Mostra perderia sua razão de ser”. Os filmes do Coletivo são O Menino e a Caixa Misteriosa, de Leonardo Maximiano e Andrieli Torres, O Pai da Noite, de Artisio Silva e Andrieli Torres, Florzinha, de José Priciano, e À Procura do Sol, de Rozangela Modesto.

Esses filmes são apresentados nas mesma sessões dos longas competitivos: Mate-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira, A Família Dionti, de Alan Minas, Aspirantes, de Ives Rosenfeld, e Campo Grande, de Sandra Kogut. Há também os curtas da competição nacional e os longas exibidos fora de concurso (como As Fábulas Negras, de vários diretores, Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, Califórnia, de Marina Person, e Casa Grande, de Felipe Gamarano, e Piadeiros, de Gustavo Rosa de Moura), além de uma mostra informativa com sessões no Centro de Cultura da Cidade.

Gostoso tem uma Mostra de Cinema de muito charme e sabor, sem esquecer a ação social, seu fundamento maior.

 

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