Mostra de Gostoso 2018: Sócrates & outros
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Mostra de Gostoso 2018: Sócrates & outros

Mostra de Gostoso, com bons filmes no telão da praia, no Rio Grande do Norte

Luiz Zanin Oricchio

26 Novembro 2018 | 14h45

Sócrates no telão da Praia do Maceió, em São Miguel do Gostoso

São Miguel do Gostoso/RN

Muita coisa já rolou nesta 5ª Mostra de Cinema de Gostoso que termina (tão rápido…) amanhã.

A mais intensa, talvez a mais polêmica até aqui, tenha sido a apresentação de Sócrates, de Alex Moratto, uma produção da ONG santista Instituto Querô que tantos bons serviços tem prestado em termos de inclusão social através do audiovisual.

Sócrates passa-se na Baixada Santista, em especial em duas cidades, São Vicente e Santos. Sócrates (Christian Malheiros) é um garoto de 15 anos, discriminado por ser pobre, preto e gay – é rejeitado até mesmo pelo pai. Vive com a mãe, até que esta adoece. Precisa então dar um jeito de sobreviver e tenta de tudo. Mas o emprego é difícil, por ser menor de idade, o aluguel do quarto está atrasado, e o pai é um brutamontes sem sentimentos.

O filme é forte, acompanha o personagem de perto, como se fosse um documentário. Christian esteve aqui em Gostoso e contou que o longa custou meros US$ 20 mil, trazidos por seu diretor, norte-americano. Perguntei a ele em que grau Moratto conhecia a realidade brasileira para fazer um filme como este e Christian disse que ele foi aprendendo à medida que ia realizando o projeto. Este foi sendo modificado pela própria experiência dos atores, todos eles conhecedores da realidade social da região. Sobretudo a mais dura, como a Favela México 70, em São Vicente, e a Zona Noroeste, em Santos, distantes das praias e dos jardins que compõem o cartão de visitas da cidades.

Posso dizer que, se eu não soubesse que Moratto era estrangeiro, nem teria desconfiado, tamanha a autenticidade da narrativa. Intensa, comovente, ela é a saga de um jovem pobre no país, agravada pelo fato de pertencer a minorias discriminadas. Sócrates é assertivo ao apontar essas mazelas sem qualquer rodeio ou retórica.

Se algo falta ao filme é um pouco de contradição, como se contradições pudessem enfraquecer um projeto já em si forte. Pelo contrário, a vida (como a arte) é feita dessas ambivalências, de nuances, de acasos, de peças que não se encaixam numa narrativa coerente – e, por isso mesmo, lhe emprestam vigor e vivacidade. Sócrates, o filme, é muito rígido nisso. Faltam-lhe o balanço e o tempero da vida.

Alguns dos outros longas eu já havia visto em outros festivais, e por isso passo rapidamente por eles.

Meu Nome é Daniel, de Daniel Gonçalves, é o relato autobiográfico de uma superação que não se assume como tal. Explico. Daniel nasceu com uma síndrome nunca diagnosticada pelos médicos e que o deixou com deficiências motoras sérias. Compensa tudo com uma força de vontade incrível, inteligência aguda e coragem rara. E, sobretudo, com uma ausência total de autopiedade. É um exemplo para todo mundo, sem querer ser exemplo para ninguém.

Fabiana, de Bruna Laboissière, é um documentário de observação da personagem-título. Fabiana é uma caminhoneira trans, elemento raro, senão único, num universo másculo. Enfrenta preconceitos, fala de tudo abertamente e administra inclusive o ocaso de sua carreira nas estradas.

É uma figuraça, retratada com todo o respeito pela diretora, que a conheceu quando viajava de carona pelo Brasil. Boa parte da história é contada por Fabiana na própria cabine do caminhão enquanto enfrenta as estradas brasileiras para entregar mercadorias de cidade em cidade.

Esses foram os longas até aqui.

Em outro post falo dos curtas nacionais e dos filmes locais, produzidos pelo coletivo Nós do Audiovisual.