Mostra de Gostoso 2018: Inferninho e outras milongas
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Mostra de Gostoso 2018: Inferninho e outras milongas

Mostra vai chegando ao fim com bom nível e a surpresa da qualidade da produção local do Coletivo Nós do Audiovisual

Luiz Zanin Oricchio

27 Novembro 2018 | 14h03

 

São Miguel do Gostoso/RN

Causou surpresa na plateia a exibição de Inferninho, de Pedro Diógenes e Guto Parente, último longa em competição. Compreende-se. Imaginemos alguém que nada saiba da dupla e nem do coletivo Alumbramento, do Ceará. Não há como não se espantar diante de uma história encenada em tons dramáticos, flertando abertamente com o kitsch e quase com uma estética camp.

Caso se abstraia a questão formal, Inferninho, como o título diz, ambienta-se num decadente barzinho de noite, no qual o staff, a começar pela proprietária, parece tão estranho quanto os frequentadores. Ganha uma dinâmica especial a chegada de um marinheiro de ares fassbinderianos, que evoca Querelle de Brest, o famoso filme do diretor alemão.

No fundo, o filme é um melodrama sensível, que defende a convivência entre diferentes e aponta o dedo para tudo que nos aflige no atual estado civilizatório, se o termo cabe. Inveja, cobiça, negociatas, golpes e especulação imobiliária. O lucro acima de tudo e o dinheiro como Deus supremo, em detrimento do respeito e das relações humanas. O diálogo entre Deusimar, a proprietária e um homem fantasiado e chamado de Coelho é comovente. A extravagância dos tipos físicos e suas roupas potencializa essa emoção, que termina por uma epifania. Muito bonito mesmo.

Dos curtas, deixo de falar dos que já conhecia e privilegio as novidades. Entre elas, Codinome Breno, de Manoel Batista, sob a prospecção de uma memória familiar na época da ditadura. P’s, de Lourival Andrade, é uma criativa adaptação teatral (agora vertida para o formato curto do cinema) de um clássico de Michel Foucault, Eu, Pierre Rivière…Em Teoria sobre um Planeta Estranho, o mineiro de Cordisburgo Marco Antonio Pereira, dá continuidade a seu processo de releitura do rico imaginário da sua região, agora em termos pós-modernos e diálogo constante com a ficção científica.

A melhor surpresa para os frequentadores do festival foi a qualidade e a riqueza da produção local, que apresentou nada menos que cinco curtas-metragens do Coletivo Nós do Audiovisual, todos de muito bom nível, tanto técnico quanto de concepção de roteiro, realização e atuação. Entre Autômato do Tempo, Derradeiro, Medo é uma Moita, meu destaque fica para Filho de Peixe, de Igor Ribeiro. O Grande Amor de um Lobo será apresentado hoje à noite, durante a cerimônia de premiação.

Filho de Peixe faz uma interessante prospecção da profissão de pescador, através, em especial, dos depoimentos de dois veteranos do métier. Sem romantizar o duro trabalho da pesca, mas também sem negar o fascínio exercido pelo mar, o filme nos dá um painel realista de uma comunidade ainda resistente à degradação, mas que sente os efeitos do progresso e do turismo.

Que consigam sobreviver, porque este é um local encantador. O único problema da Mostra de Gostoso é que termina rápido demais.

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