Mostra 2021: Titane, um filme desconcertante
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Mostra 2021: Titane, um filme desconcertante

Luiz Zanin Oricchio

29 de outubro de 2021 | 12h42

Saí de Titane sem saber responder ao certo se havia gostado ou não do filme. Gostar, no sentido de sentir prazer, gozo estético ou algo parecido, é uma coisa. Outra, admitir que o filme é original e busca tirar o espectador do seu eixo de certezas. Tem esse mérito, sem dúvida. 

Tentando pensar sobre ele, me parece que é uma espécie de filme-sintoma, como foram, em seus tempos, A Voz da Lua, última obra de Federico Fellini, e Crash, de David Cronenberg. São muito diferentes, eu sei. Mas, à maneira de obras-sintoma, não importa muito seu conteúdo, e nem, no limite, sua estética, mas a maneira como, a bem dizer, “sofrem” com a perspectiva de um mundo sentido  como em profunda dissonância com o indivíduo. 

Claro que a aproximação com Crash é muito mais evidente. Afinal, Titane também coloca o automóvel e o acidente como metáforas de um mundo à beira do abismo. 

Sem esses elementos, e sem a carnalidade dos outros filmes, Fellini também aludia a essa dissonância, ao mundo que perde seus eixos e afunda no caos cognitivo e no ruído ensurdecedor. Como os outros, também, é um filme sobre a loucura e a impossibilidade de harmonia. 

Mas a ênfase de Titane é sobre o corpo físico, num trabalho sensorial que implica a transformação, ou melhor, a mortificação dos dois organismos principais envolvidos – o da protagonista Alexia (Agathe Rouselle) e Vincent (Vincent Lindon).

 Alexia é a menina que sofre um acidente (em boa parte por ela provocado) e recebe um implante de titânio para se recuperar dos ferimentos. A cirurgia produz profundas modificações na garota. Ele, chefe de uma equipe de bombeiros, parecida a uma seita, angustiado pela busca de um filho desaparecido há muito tempo. 

Nesse embrulho cabem os temas da atualidade, o ruído sob a forma de uma trilha sonora tão bela quanto perturbadora e altissonante – nada a ver com a trilha de outro filme sobre a violência, a obra-prima de Stanley Kubrick, Laranja Mecânica. Essa trilha é um paradigma de sutileza e incômodo, saída do sintetizador de Walter Carlos (hoje Wendy Carlos). Em Titane, tudo é fora de medida, música inclusive. 

Há também a sexualidade não-binária, combinada com os temas da paternidade, do sentimento filial e também da maternidade. Também da relação do ser humano com a tecnologia na forma de implantes que modificam sua natureza. E da violência, que brota com a naturalidade de água na torneira, como consequência matemática da vida em estado de alienação profunda. Daí se nota o grau de ambição de uma obra que toca tanto em temas palpitantes da atualidade (embora estejam “em cartaz” desde a Grécia Antiga) como em disposições tidas como universais (pai, mãe, filhos, a família em suma). 

 Daí ser uma obra exigente com o público. Gostar ou não, isso é de cada um e, no fundo, é o de menos. Difícil é permanecer indiferente a esse filme de problemática qualificação. 

Titane, segundo longa da diretora Julia Ducournau, venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano, sob presidência de Spike Lee. 

Todas as informações necessárias sobre horários e compra de ingressos estão disponíveis no site da Mostra: https://45.mostra.org/

 

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