Mostra 2021: Regresso a Reims (Fragmentos)
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Mostra 2021: Regresso a Reims (Fragmentos)

Luiz Zanin Oricchio

24 de outubro de 2021 | 13h12

Achei espetacular este Regresso a Reims (Fragmentos), de Jean-Gabriel Périot. Trata-se de um esboço da recente história política francesa, contada pelo prisma da classe operária. 

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O filme é composto da montagem de outros filmes – alguns muito famosos, como Joli Mai, de Chris Marker, Crônica de um Verão, de Rouch & Morin, Zéro de Conduite, de Jean Vigo. E outros menos manjados, como registros de manifestações feitos por entidades sindicais, por exemplo. 

Já a montagem de imagens é, em si, vibrante. Mais ainda quando associada à narração da obra que dá origem à peça cinematográfica – Retorno a Reims, de Didier Eribon. Os “fragmentos” desse livro são narrados pela atriz Adèle Haenel. 

Regresso a Reims nos fala de uma cultura proletária francesa profundamente associada ao Partido Comunista nos anos 1950. Ser comunista era uma espécie de carteira de identidade do trabalhador francês naquele período. Mas as coisas foram mudando. Quando por fim a esquerda chega ao poder, em 1981 com o socialista François Mitterrand, a classe operária se rejubila como se fosse a culminação da vitória após longa luta. 

Não foi assim, e quando a Realpolitik impôs limites às conquistas populares, houve grande decepção. Desse modo, o filme, através da fala de Haenel, mas também das imagens, mostra como seu deu a surpreendente migração de boa parte da classe operária para o extremo oposto, o Front National do ultra-direitista Jean-Marie Le Pen.

Como é possível ao eleitor ir do voto comunista ao voto fascista? Há muitas interpretações. Uma, entre elas, aponta para a insegurança no trabalho e a eleição do imigrante como bode expiatório. Claro que para nós, brasileiros, essa reflexão fornece uma chave de explicação para o fato de pessoas que antes votavam no PT passarem a apoiar Bolsonaro. As raízes do fascismo parecem nutrir-se essa sensação de “ter sido deixado para trás”. Insegurança, ressentimento, hostilidade ao outro – tudo isso serve de adubo a ideias tóxicas da extrema-direita. 

Há um ponto muito importante do filme, que aponta o racismo estrutural da classe operária francesa, branca e nacionalista, como a ponte a servir de passagem de um extremo a outro. Não apenas a frustração pelas esperanças não realizadas, mas o mal-estar com a chegada de trabalhadores estrangeiros, em especial do Maghreb, das antigas colônias francesas. 

 Instigado pelo filme, comecei a ler o livro de Didier Eribon. É brilhante. Já conhecia o autor pela biografia que escreveu do seu amigo Michel Foucault. No livro, conta como um filho de proletários, rompeu com sua classe e cultura. Nascido em Reims, foi para Paris aos 20 anos. Aluno brilhante, tornou-se professor, escritor e um dos intelectuais mais importantes da França. 

É um dos casos que os franceses chamam de “transfuge” de classe. E é essa passagem que ele analisa, como um antropólogo de si mesmo. Só volta a falar com a mãe mais de 20 anos depois de ter deixado a casa, quando o pai é internado com Alzheimer. Não comparece ao enterro do pai. Não o perdoa. Apenas tenta entender o que aconteceu. E, de sua dolorosa auto-investigação familiar, brotam luzes para a migração da classe operária da esquerda para a direita. 

O filme ainda faz uma coda com o fenômeno atual dos “gilets jaunes” (coletes amarelos), movimento de ideologia indefinida que se tornou protagonista político na França atual. O movimento é de 2018 e não poderia estar no livro, lançado em 2006.

 Grande sucesso editorial, Retour à Reims inspirou o filme e, antes dele, uma peça teatral que teve várias montagens, na França e Alemanha, e inclusive no Brasil, como fiquei sabendo por uma amiga. 

A reflexão sobre as lutas políticas e seus paradoxos históricos não é estranha ao cineasta  Jean-Gabriel Périot. Seu filme anterior, Nossas Derrotas (https://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/mostra-2019-nossas-derrotas/), esteve presente na Mostra de 2019. É outra reflexão dolorosa sobre a História – esse pesadelo do qual não conseguimos despertar, para lembrar da frase de James Joyce.

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