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Mostra 2021: o debate ético em ‘O Compromisso de Hazan’

Luiz Zanin Oricchio

22 de outubro de 2021 | 14h31

 

Na minha opinião, o turco O Compromisso de Hazan, de Semih Kaplanoglu, é, desde já, um dos grandes filmes desta 45ª Mostra de Cinema de São Paulo. 

Tem aquelas panorâmicas largas, que já se tornaram característica do cinema do país nos últimos tempos – haja vista os trabalhos do mais famoso entre eles, o cineasta Nuri Bilge Ceylan (de Era uma Vez na Anatólia). 

Aos poucos vamos entrando na vida do personagem-título, um fazendeiro que trabalha na propriedade herdada do pai. Também devagarinho, somos apresentados aos problemas de Hazan, como a queda do preço dos tomates que cultiva. E, em aparência, o maior deles, a disposição de uma companhia de eletricidade em plantar uma torre de transmissão em sua propriedade, inviabilizando parte do campo. 

Por outro lado, surge outra (e verdadeira) dimensão do filme quando Hazan decide fazer uma peregrinação à Meca em companhia da esposa. Ora, o muçulmano deve chegar à cidade sagrada em estado de pureza, o que implica pedir a benção (e o perdão) a todos aqueles que possa, porventura, ter prejudicado. 

Dessa forma, são expostos os arranjos e “pecados” que se cometem no mundo dos seres humanos. Do tipo comprar terras a preço vil a um vizinho apertado por dívidas e portando desesperado por dinheiro. Ou a ofensa cometida a um empregado em tempos passados. Ou ainda, um irmão com quem Hazan se indispôs por ocasião da partilha de uma herança.

O desenvolvimento do enredo é longo, os personagens são bem desenhados, há profundidade no que se vê e se fala na tela. As pequenas manipulações, trocas de favores e golpes baixos de que se compõe a vida são expostos em seu intrincado rendilhado. A religião aparece em seu lado menos soturno, como possibilidade de exame de consciência e resgate de culpas passadas. 

Vale dizer que o filme apresenta um retrato bastante matizado – e por isso raro – da civilização islâmica, quase sempre percebida com estereótipos preconceituosos pelo olhar ocidental. Como se tivéssemos lições a dar ao mundo…

 

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