Mostra 2021: Marx Pode Esperar
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Mostra 2021: Marx Pode Esperar

Luiz Zanin Oricchio

01 de novembro de 2021 | 11h12

Marco Bellocchio teve um irmão gêmeo, Camillo, que se suicidou antes de completar 30 anos. Em Marx pode Esperar, Bellocchio reúne a família para lembrar a memória de Camillo, em torno da qual pairava até então um silêncio obsequioso. 

Vendo-se o filme, pode-se compreender esse silêncio. O pai era um materialista empedernido, que expulsou do quarto o padre que lhe levava a extrema unção. A mãe, pelo contrário, era uma carola religiosa. Os irmãos foram oito – seis meninos e duas meninas. Os remanescentes estavam reunidos. Duas irmãs, um intelectual, um cineasta de sucesso mundial. Um dos meninos era diagnosticado como esquizofrênico. Camillo morreu jovem. Das duas irmãs, uma nasceu surdo-muda e se expressa com dificuldade (porém com eloquência). 

Como acontece em quase toda família cristã, (mesmo se os filhos não forem crentes), a culpa que ronda as consciências. Em especial quando um deles resolveu deixar a vida voluntariamente. 

Por que Camillo se matou, se era belo, tinha uma namorada linda, era dono de uma academia de ginástica? Não se sabe e não se saberá, pois é impossível sentir como o outro, saber o que se passa na cabeça de outra pessoa, avaliar a intensidade de sua angústia. 

Marco Bellocchio se pergunta: poderia ter feito mais pelo meu irmão? Em especial porque, em determinada época, Camillo vai ao encontro do irmão gêmeo, já então famoso, e lhe pede uma colocação no meio cinematográfico. Bellocchio não lhe dá muita atenção. Quando o irmão fala de sua ansiedade diante de uma vida que lhe parece sem sentido, Bellocchio lhe responde que sua angústia deve ter causas sociais e o que de melhor pode fazer é engajar-se na luta política, em ebulição na Itália da época. Camillo responde, simplesmente: “Marx pode esperar”. Não poderia haver melhor título para esse mea culpa em forma de obra cinematográfica. 

O filme é entremeado por cenas do encontro familiar e excertos da própria obra cinematográfica de Bellocchio. Nestes, vemos como os conflitos de família do diretor entram de forma ficcional em seus filmes. E, em particular, como a dimensão da culpa em relação a Camillo pode estar presente em personagens ficcionais dessa extraordinária trajetória cinematográfica. O rapaz que queria entrar para o cinema pela mão do irmão famoso, acabou realizando o desejo de maneira póstuma e por outras vias. 

Marx Pode Esperar foi o filme que mais me comoveu até agora nesta Mostra. Uma grande realização, corajosa, despojada, aguda. Como dizia Freud, é a culpa e não a fé que remove montanhas. 

Todas as informações necessárias sobre horários e compra de ingressos estão disponíveis no site da Mostra: https://45.mostra.org/