Mostra 2020: ‘Sibéria’, o cristianismo estrutural de Abel Ferrara
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Mostra 2020: ‘Sibéria’, o cristianismo estrutural de Abel Ferrara

Luiz Zanin Oricchio

26 de outubro de 2020 | 10h35

Há na Mostra dois filmes de Abel Ferrara a serem vistos em série: Sibéria e Sportin’ Life

Vendo Sibéria, logo me lembrei de 81/2, de Federico Fellini. Não, Sibéria não é a obra-prima felliniana. Mas, como esta, se debruça sobre vários temas do “romance familiar” (para usar uma ideia de Freud) do diretor. Fellini era italiano, Ferrara é ítalo-americano do Bronx. Ambos formados no catolicismo. 

Entre esses temas comuns, as culpas em relação a pai e mãe, já mortos. É algo duro: que relação estabelecemos com os que já foram, em especial nossos pais? Eles já não estão entre nós, mas a memória deles persiste em nós. Por isso, não espanta que pai e mãe mortos retornem ao alter ego de Ferrara, Clint, vivido por seu ator-fetiche, Willem Dafoe. O pai que o levava para pescar e foi insuficientemente amado, a mãe que morre sem que ele esteja presente, são mais do que fantasmas do passado. São ícones da sua culpa. E a culpa, como se sabe, é uma das mais geniais invenções do cristianismo. Ela é que conserva vivo o débito eterno do pecador. E, dessa forma, o mantém sob controle. 

Clint, que vive num deserto de neve, e nele se move em seu trenó puxado por cães, reaparece em seguida em outro deserto, de areia. De uma forma ou de outra vive em desertos. Em seu deserto interior. Relaciona-se com pessoas cujos idiomas não entende, sente a presença de monstros prestes a devorá-lo. Aparecem também mulheres, entre as quais a doce presença de uma jovem grávida (Cristina Chiriac, mulher de Ferrara), uma espécie de Virgem Maria profana. 

Nos deslocamentos de Clint sempre reaparece o crucifixo, símbolo máximo do cristianismo. A lembrar que alguém sofreu e morreu por nós e que, por mais que façamos, jamais estaremos à altura desse sacrifício. 

Como a dizer que quem é formado dentro do catolicismo traz esse núcleo duro dentro de si, de maneira irremediável. Pode não ir à missa, nem se confessar e comungar. Pode renegar sua crença, e dizer-se ateu. Mas traz em si a culpa primordial como cicatriz indelével, parte de sua estrutura mental e moral.  

Enfim, é um cinema atormentado por esse tipo de pergunta religiosa: o que é o ser humano? Qual sua missão? Qual o sentido de sua presença na Terra? Por que existe o mal se Deus é bondade? Como expiar a culpa se já nascemos sob o signo do pecado original? Questões religiosas-existenciais e, como tais, irrespondíveis. Mas que podem acender o fogo de um cinema muito criativo quando aliadas a um espírito rebelde e dotado de enorme talento visual. 

Sportin’ Life registra a passagem de Ferrara e Dafoe pelo Festival de Berlim, no qual Sibéria era exibido. Há muita conversa entre os dois, trechos de entrevistas feitas pelos repórteres de festivais, passeios pela cidade e shows de rock – Ferrara toca guitarra. O festival foi em fevereiro, no pré-Covid, uma época que já parece pertencer a um tempo distante. 

Ferrara faz com que as imagens da pandemia entrem no filme. As ruas desertas de Roma (onde mora), a paranoia, os hospitais. O mundo com medo, como se um castigo divino tivesse se abatido sobre ele. O apocalipse, talvez. Mas entram também a indiferença e a violência dos homens. Daí a figura caricata do profeta maior da distopia, Donald Trump, e as imagens brutais do policial assassinando o homem negro, Georges Floyd, em Minneapolis. O mal no mundo, mais uma vez. E a esperança numa improvável redenção.  

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