Mostra 2020: Meus dez filmes preferidos
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Mostra 2020: Meus dez filmes preferidos

Luiz Zanin Oricchio

04 de novembro de 2020 | 16h53

Mais uma Mostra de São Paulo vai chegando ao fim. Hoje à noite tem a premiação. E amanhã já começa a (mega) repescagem, com 130 filmes ainda disponíveis para aluguel no site mostraplay.mostra.org.  

Não vou chover no molhado e repetir que o cinema presencial é insubstituível, etc, mas, neste ano de pandemia, o importante era não deixar que eventos e festivais sofressem interrupções. Também foi bom para nós, confinados, termos muitos filmes para ver. No todo, acho que programação trazida este ano pela Mostra SP foi muito boa. E, se não houve o boca a boca presencial, ele continuou a existir, desta vez limitado às redes sociais. Também funciona e peguei muitas indicações virtuais entre amigos. Valeu. 

Abaixo vai minha lista comentada, escolhida entre o que pude ver este ano – cerca de 50 filmes. Concordem, discordem, comentem. 

Estrangeiros:

Não há mal algum (Irã). Para mim, não houve nenhum filme comparável a este iraniano, que discute temas éticos como a pena de morte, por exemplo. No primeiro episódio, sofri um baque repentino – quem viu o longa me entende. Nenhum outro provocou em mim tal sensação de deslocamento. 

Mosquito (Portugal). Muito boa a história da “guerra sem guerra e do soldado sem pelotão” em Moçambique, em 1917. Imersão nada ingênua no horror da guerra e no absurdo do colonialismo português na África. 

Pai (Sérvia). Talvez um pouco convencional do ponto de vista da forma. Mas o protagonista, o pai que faz de tudo, literalmente de tudo,  para ter os filhos de volta, torna tudo muito forte. Difícil não se emocionar. 

Nadando até o mar se tornar azul (China). Tenho a impressão de que Eduardo Coutinho amaria este filme de Jia Zhang-ke. É um trabalho de diálogo, ou melhor, de conversa, sobre as mudanças bruscas ocorridas na China e como elas atingem as pessoas comuns. É o tema de Jia, em tantos outros e geniais filmes. Neste documentário ele encontra excelentes narradores para contar suas experiências. E, como dizia mestre Coutinho, não basta o sujeito ter uma ótima história para contar. Precisa saber contá-la. 

Berlin Alexanderplatz (Alemanha). Fã de carteirinha da obra de Fassbinder, confesso que fui com certo receio a esta refilmagem do romance de Alfred Döblin. Mas terminei por achar essa releitura muito boa, atualizando o personagem principal e o ambiente. No original, Franz é um trabalhador braçal que cai no crime durante os anos tempestuosos da República de Weimar. Agora, ele é um imigrante africano que tenta encontrar seu lugar numa Europa corroída por crises de identidade e xenofobia. 

Nacionais: 

Claro/Glauber. Também fui com pouca convicção a este documentário sobre Claro, filme que Glauber Rocha rodou na Itália, durante seu exílio. Ótimos depoimentos, personagens marcantes e clima de época reconstituído com muita felicidade fazem dele algo mais o que um registro cinéfilo sobre uma obra ainda pouco estudada. 

Casa de antiguidades. Em alguns momentos o filme me pareceu meio pesado. Mas Antônio Pitanga dá tal vigor à história que pronto nos esquecemos de seus problemas. Vale também pela disposição em prospectar raízes da nossa violência e intolerância, esteios históricos da distopia em que vivemos. 

Ana. Sem título. Uma boa sacada ao trazer, através de personagem ficcional, todo um leque dos crimes políticos que compõem a sangrenta história dos nossos continentes, do México à Argentina, passando pelo Brasil.  

#eagoraoque. Senti que esse documentário passou um pouco em branco pelo público da Mostra. Merece discussão ao colocar em pauta a questão central da relação dos intelectuais com o povo. Um dos personagens – Jean-Claude Bernardet – tem um estudo fundamental sobre esse tema, Cineastas e Imagens do Povo. O outro, colocado na berlinda, é Vladimir Safatle, filósofo e articulista conhecido. O intelectual ainda fala para o povo? (Já falou?) Ou está e sempre esteve em sua “bolha”, como dizemos hoje? 

Mar de Dentro. Um tratamento simples e honesto sobre a questão da maternidade. Em meio a muitas firulas e poucos resultados, o cinema brasileiro (pelo menos pela amostra apresentada), esse tipo de obra, que deseja se comunicar sem baratear suas ideias, merece ser destacado. É melhor que muito filme-cabeça pretensioso. 

 

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