Mostra 2020: ‘Aranha’ e ‘Ana’, a herança trágica da América Latina
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Mostra 2020: ‘Aranha’ e ‘Ana’, a herança trágica da América Latina

Luiz Zanin Oricchio

31 de outubro de 2020 | 11h19

Mercedes Morán em ‘Aranha’: cumplicidade civis com as ditaduras

As veias abertas da América Latina continuam a sangrar nas telas. Aranha, do chileno Andrés Wood, lembra as ações do movimento de extrema-direita Pátria y Libertad, que cometeu vários crimes para combater e desestabilizar o governo de Salvador Allende. Ana, Sem Título, de Lúcia Murat, faz um percurso de países em busca de uma artista plástica desaparecida. No trajeto, relembra as lutas do passado e as atrocidades cometidas pela repressão em nome da defesa da democracia. 

Aranha é uma ficção em torno do que aconteceu na realidade – o título se refere ao símbolo de um movimento que se queria anticapitalista de um lado e anticomunista de outro. Daí se vê como essas extravagâncias ideológicas encontram terreno fértil em nossas terras. Aqui mesmo já foi dito que o nacional-socialismo, vulgo nazismo, era um partido de esquerda…e nem por isso as pessoas estranharam.  

Em Aranha, temos o enlace indigesto do passado com o presente. Um menino de rua assalta alguém e foge com a bolsa roubada nas mãos. Recebe a implacável perseguição de um motorista que passava pela rua naquele momento. Tudo termina de forma trágica, com o ladrão prensado pelo carro contra um muro. O menino morre e o motorista é aplaudido pelas “pessoas de bem” que assistem ao ato. Isso não impede que o “herói” seja preso. Em sua casa descobrem um arsenal e vínculos com um passado sinistro. 

Ele se chama Gerardo e a ligação com o passado é feita através de Inês (Mercedes Morán e Maria Valverde em duas fases da vida). Gerardo jovem é um tipo violento, cooptado como braço armado para o Patria y Libertad, formado por estudantes como Inés e seu noivo, Justo. Ativista de direita na juventude, Inés é hoje próspera empresária que deseja tudo menos ver seu nome vinculado ao ativismo da mocidade.

O filme boia, portanto, entre esses dois tempos. Os atuais, com o Chile neoliberal sendo contestado pelos jovens nas ruas, e o do passado, com o governo da Unidade Popular enfrentando Estados Unidos, empresários contrariados, boicotes, classe média ressentida e terroristas de extrema-direita. Sob tal pressão, Allende foi derrubado em 11 de setembro de 1973. O Chile de hoje é herdeiro do Chile de outrora. Mas parece disposto a jogar no lixo esse legado incômodo.

 Bem conduzido entre a narrativa do presente e o flashback, Aranha fornece um retrato febril desses nossos países em que o passado parece não passar. Traça um perfil bastante crível das classes dominantes, e coloca em jogo outras pulsões no andamento histórico, além das razões de classe e seus interesses econômicos. O triângulo formado por Inês, Justo e Gerardo pode muito bem simbolizar também as uniões efêmeras das camadas dominantes com as populares, iludidas com os apelos da direita. Quando e como isso convém, findo o que, as alianças e ocasião se dissolvem. 

Aranha é muito bom filme, dirigido com sobriedade, do qual a paixão não está ausente. Andrés Wood é também diretor de Machuca, sobre a ditadura vista por olhos infantis. 

Já o expediente narrativo de Ana, Sem Título joga o filme na fronteira entre a ficção e o documentário. Fronteira, como se sabe, cada vez mais imprecisa e fluida. Stella está realizando um documentário sobre artistas plásticas que trocaram cartas ao longo dos anos 1960 e 1970, na América Latina. A busca ganha outro sentido quando descobrem uma série de fotos da artista Ana. Assim: sem sobrenome. Ana teve ou tem vida intensa. Quem sabe se está viva, ou onde mora?  Artista performática, negra, contestadora, teria sido perseguida pela ditadura. O filme é a história dessa busca. 

Quem vemos em cena é a própria Stella (Stella Rabello), além da diretora Lucia Murat, que representa a si mesma, e mais a equipe técnica. Ana é uma sombra que se vê ao fundo e dá sentido ao périplo que vai de Cuba a México, passando pelo Chile, entrando na Argentina e voltando ao sul do país, onde talvez se possa encontrar o rasto da hipotética Ana. 

Do México, com o massacre da Plaza Tlatelolco à brutalidade militar chilena, o que se encontra não são apenas traços de uma mulher perseguida por suas ideias avançadas. O que vê é o inacreditável desfile de barbaridades cometidas pelos donos do poder nestas terras de caudilhos, militares golpistas e sociedades civis cúmplices. 

Ana. Sem Título é um belo e pungente filme, que usa da ficção como expediente para recordar as feridas abertas da nossa história. 

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