Mostra 2019: os prêmios e as polêmicas
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Mostra 2019: os prêmios e as polêmicas

Luiz Zanin Oricchio

31 de outubro de 2019 | 18h59

Honeyland: luz de Rembrandt

Termina a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ainda há a repescagem e a exibição, com orquestra ao vivo, de O Gabinete do Doutor Caligari. Mas os premiados já saíram. Primeiro dou a lista e depois comento:  

OS PREMIADOS:

. “Honeyland”, de Tamara Kotevska & Ljubomir Stefanov (Macedônia do Norte) – melhor documentário pelo júri oficial, Prêmio da Crítica (melhor filme internacional)

 

. “System Crasher”, de Nora Fingscheidt (Alemanha), e “Dente de Leite”, de Shannon Murphy (Austrália): melhor ficção internacional (ex-aqueo)

 

. “Aos Olhos de Ernesto”, de Ana Luiza Azevedo (Rio Grande do Sul) – Prêmio da Crítica de melhor filme brasileiro

 

. “Currais”,de David Aguiar e Sabina Colares (Ceará) – Prêmio Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) para filmes de diretores estreantes.

 

. “Chorão, o Marginal Alado”, de Felipe Novaes (São Paulo) – Melhor documentário brasileiro pelo júri popular

 

. “Pacificado”, de Paxton Winters (Brasil/EUA)– melhor ficção brasileira, pelo júri popular

 

. “A Grande Muralha Verde”, de Jared P. Scott (Inglaterra) – melhor documentário internacional

 

 

. “Parasita”, de Bong Joon-ho (Coréia do Sul) – melhor filme internacional pelo júri popular

 

 

. “O Campo dos Lobos Guarás”, de Bárbara Cunha e Paulo Caldas (Brasil) – Prêmio Projeto Paradiso, do Instituto Olga Rabinovich (para filmes em fase de roteiro).

 

O documentário premiado, Honeyland, da Macedônia do Norte, de fato havia impressionado a quem o viu. Mostra a vida de uma mulher, que vive em companhia da velha mãe numa montanha isolada. É apicultora (daí o título) e impossível imaginar vida mais dura. Quer dizer, até a chegada de uma vizinhança incômoda, que destrói o equilíbrio ecológico e, em seguida, parte para outras paragens. O rigor do filme, sua luz à Rembrandt, e a empatia que consegue estabelecer com o público fizerem toda a diferença.  

As duas ficções que dividiram o prêmio do júri oficial – System Crasher (Alemanha) e Dente de Leite (Austrália) – me parecem o que havia de melhor dentro da Mostra,  pelo menos da parte que eu vi. Claro que também havia o peso pesado coreano Parasita, que acabou sendo premiado pelo público. São – os três – exemplos de um cinema sem concessões que, apesar de tudo, anda sendo feito pelo mundo. Em System Crasher, a garota que não se adapta de jeito nenhum ao ambiente, mesmo que este faça tudo para assimilá-la. Em Dente de Leite, a menina doente que oferece à sua família o desafio de uma despedida também sem remissão, em companhia de um namorado bastante inusual. E, em Parasita, a família pobre que se imiscui na família rica e cria, no espectador inteligente, aquela pergunta incômoda: afinal, quem parasita quem?

O prêmio da crítica elegeu como melhor brasileiro Aos Olhos de Ernesto, de Ana Luíza Azevedo. Nesse tempo bruto e muito burro em nosso país, oferece o refresco de um tom delicado na história sutil do idoso uruguaio que vive só em Porto Alegre. Ernesto é interpretado por Jorge Bolani, um dos atores de Whisky, o mitológico exemplar da melancolia crítica uruguaia. 

O prêmio da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) foi para o cearense Currais, documentário forte sobre a criação de campos de concentração durante os períodos de seca, em que retirantes “ameaçavam” deslocar-se para Fortaleza. É um exemplo de como, historicamente, as classes dirigentes brasileiras se relacionam com a miséria. Na base do porrete. 

Esses são alguns dos vencedores. Vi, ao longo da Mostra, cerca de 60 longas-metragens. Muita coisa valeu a pena. A maior parte. Mas o lucro foi imenso. Muitos desses filmes deixei de comentar, por absoluta falta de tempo. Outros, o fiz de maneira breve, na esperança de que entrem em cartaz mais adiante e mereçam melhor atenção. 

Por exemplo, na última hora consegui ingresso para uma sessão do espanhol O que Arde, que andava muito badalado entre os cinéfilos e portanto quase inacessível. Um filme extraordinário, história de um piromaníaco que cumpre dois anos de prisão e volta para sua casa, no interior da Galícia. O apuro visual, a surpresa narrativa, a naturalidade com que atores não profissionais interpretam a si mesmos fazem deste filme uma experiência inesquecível. Ele diz muito sobre a natureza humana e sua vocação para eleger bodes expiatórios, culpabilizar os outros e criar estigmas.  

Outro filme que amei foi a Joana d’Arc, de Bruno Dumont, radicalizada pela escolha da intérprete, uma menina de nove anos. O que reforça o autoritarismo que sobre ela se exerce e a coragem com que ela enfrenta as acusações. 

Ao contrário de muita gente boa, gostei de Synonymes, o vencedor do Urso de Ouro de Berlim. Verdade, sua artificialidade dificulta a identificação com o personagem, mas a inteligência de sua estrutura propõe um interessante jogo de decodificação de imagens e ideias. 

Por outro lado, fiquei intrigado com o sucesso de O Farol. Fui a uma sessão de imprensa em que quase não havia lugar para sentar. Na mostra, um ingresso para este filme era disputado como peça preciosa. Quando terminou a projeção, me veio à cabeça o título de uma peça de Shakespeare, Much Ado About Nothing. Muito barulho por nada. Enfim, como dizia Guimarães Rosa, há pão e pães, opinião e opiniães.

Curti o diálogo humanista de Dois Papas, de Fernando Meirelles, que põe para conversar Bento 16 (Jonathan Pryce) e o futuro papa Francisco (Anthony Hopkins) num quadro de entendimento conciliatório. A ideia é que dois homens de boa vontade, embora com visões de mundo muito diferentes, podem chegar a algum acordo em benefício da maioria. Não custa acreditar que isso seja possível.

Outro que despertou alguma controvérsia foi Wasp Network, cujo conteúdo político inteligível no quadro da Guerra Fria parece que o tornou pouco compreensível para um certo número de pessoas. Na minha opinião é um filmaço, à altura do grande livro que está em sua origem, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais. 

Outros filmes mereceriam menções, mas isso fica para mais adiante.