Mostra 2019: O Paraíso segundo Suleiman
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Mostra 2019: O Paraíso segundo Suleiman

Com seu humor à Jacques Tati, O Paraíso Deve ser Aqui, do palestino Elia Suleiman, é uma das grandes atrações da Mostra

Luiz Zanin Oricchio

23 de outubro de 2019 | 15h26

 

Gosto é gosto e vice-versa. Para mim, o (até agora) melhor filme da Mostra é Aqui Deve ser o Paraíso, do palestino Elia Suleiman. 

O diretor interpreta a si mesmo no périplo que faz entre Nazaré (sua cidade natal), Paris, Nova York e, de volta, a Nazaré. 

É um personagem silencioso. Troca, no máximo, meia dúzia de palavras, do princípio ao fim da viagem. No mais, é um observador mudo de tudo aquilo que o cerca. 

Essa comédia visual e crítica é feita com inspiração máxima. Suleiman não fala, mas os outros personagens sim. Apenas para mostrar o quanto as palavras podem ser vazias e as imagens plenas de significado. 

No entanto, há passagens verbais maravilhosas, como aquela do caçador mentiroso que conta ao cineasta como salvou uma serpente das presas de uma águia. E como foi recompensado por isso. Uma fábula.  

Mas a força das imagens se impõe, em especial quando, em gags visuais, mostra o militarismo no mundo tido por “civilizado”, como as paradas do 14 de julho em Paris ou cidadãos armados de fuzis e bazucas em Nova York.

As imagens são claras e lindas. Poucas vezes Paris foi tão bem fotografada como neste filme. Mas não se trata de uma beleza estetizante e vazia, por assim dizer: ela é apenas funcional. Dentro dessa funcionalidade estética que é própria dos cineastas que sabem onde colocar a câmera e como enquadrar as imagens. 

Filmar é ato de inteligência. É, diria Leonardo, “cosa mentale”. Suleiman, que ironiza os outros, não se poupa da auto ironia, como quando vai pedir financiamento para seu filme a um agente francês e ouve que não poderia ser, porque o projeto era insuficientemente “típico”. O Ocidente investe em obras palestinas, ou de outros lugares, por sentimento de culpa. Ou por mero exotismo. O homem do mundo, que ele é, não poupa o bom mocismo alheio e nem o distanciamento que talvez veja em si mesmo. 

A gozação paródica em relação ao Outro continua em Nova York, quando um taxista para o carro no meio da rua para comentar com a esposa, ao celular, o fato raro e marcante de  estar conduzindo em seu táxi um passageiro palestino, e nascido em Nazaré, ainda por cima. Exotismo, mais uma vez.  

Com seu humor à Jacques Tati, Suleiman mostra como a comédia pode ser corrosiva, inteligente – e política. Diz tudo o que precisa ser dito neste filme que é uma festa para o espectador. O Paraíso Deve Ser Aqui recebeu o prêmio da crítica internacional (Fipresci) no Festival de Cannes. Ganhou ainda uma menção do júri oficial. 

O diretor vem a São Paulo para receber o Prêmio Leon Cakoff. 

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