Mostra 2019: O diabo entre as pernas
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Mostra 2019: O diabo entre as pernas

Luiz Zanin Oricchio

28 de outubro de 2019 | 17h36

 

Tenho visto uma montanha de filmes, e, como consequência, escrevo pouco no blog. Uma maratona cinematográfica é um processo cumulativo e não reflexivo. Por sorte, muitos desses filmes entrarão em circuito e então poderemos falar de cada um deles, de maneira mais ordenada. Por enquanto, vamos dando pitacos, aqui e ali. Aproveito um raro intervalo entre filmes para botar no ar estas mal traçadas. 

Um desses pitacos provisórios não pode deixar de ir para este inqualificável O Diabo entre as Pernas, de Arturo Ripstein, escrito por sua parceira de vida, Alicia Garciadiego. 

É a história de um casal idoso, que vive entre crises de ciúmes (do marido) e surtos de erotismo. O marido (hipocrisia masculina) tem uma amante mas morre de ciúmes retrospectivos da esposa, cuja vida sexual foi bem movimentada antes do casamento. O casal tem uma empregada jovem, o que apimenta outro tanto o clima erótico no interior do casarão deteriorado. 

O desenho visual reforça uma impressão de antiguidade. Difícil datar o filme. Não se veem celulares, por exemplo, até onde percebi. Há um calendário na parede, que marca o ano 1957. Mas, à tantas vê-se um CD, suporte que só aparece no final dos anos 1980. A linguagem também é retrô, com palavras de um espanhol démodé. Enfim, tudo isso é firula, porque o importante é o ambiente mórbido. O marido, médico frustrado, mantém no quarto aqueles manequins com vísceras à mostra, usados em aulas de anatomia. E, sim, a câmera acompanha os personagens pelos corredores em suntuosos planos-sequencia. E invade os corpos quando estes praticam sexo – quase explícito. 

Me contaram que há um certo mal-estar em algumas plateias, porque, de fato, este filme rompe um tabu do cinema – cenas de sexo, só com gente jovem e bonita. Velho tem de jogar bocha e velha deve tricotar ou cuidar dos netinhos. Que nada! O filme nos joga na cara a permanência do desejo, que sobrevive à decadência dos corpos. 

Procurei na internet algum material sobre o filme e li uma entrevista que a dupla deu quando o filme foi apresentado no Festival de Havana. Arthuro tem 74 anos e Alicia, 70. Disse ela: “os jovens acreditam que, na velhice, o desejo arrefece e é substituído pela serenidade. Só precisam esperar que chegue sua própria velhice para constatarem que não é nada disso.”

Além das cenas de sexo com pessoas idosas, o filme tem outros motivos de incômodo – quer dizer, qualidades, ao sair dos clichês e do esperado. Por exemplo, a questão do ciúme retrospectivo, e que estimula o desejo, não chega a ser uma novidade, nem na vida e nem no campo das artes. Mas raramente é retratado, porque diz bastante sobre o ciúmes e o ciumento em sua relação ambígua com a sexualidade. 

Basta lembrar da literatura e da relação entre James Joyce sua amada Nora Barnacle. Basta, na verdade, ler o monólogo de Molly Bloom, que fecha – de maneira gloriosa, e feminista – o Ulisses. 

Entendam isso como divagação, se quiserem. Para mim é apenas a relação de uma arte com a outra, porque todas falam da mesma matéria, o humano e seus paradoxos. Ripstein, discípulo de assistente de Bunuel, é dos poucos que afrontam o tema difícil da sexualidade em seus paradoxos mais espantosos. Faz um cinema fundamental, como sabemos todos que o seguimos desde Profundo Carmesí, A Perdição dos Homens e outros filmes que desafiam o bom senso, este mentiroso.