Mostra 2019: Nossas derrotas
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Mostra 2019: Nossas derrotas

Filme procura mostrar o que resta das lutas políticas do passado na memória dos jovens franceses de hoje

Luiz Zanin Oricchio

22 de outubro de 2019 | 11h37

A adolescente Julie interpreta a operária que deseja continuar em greve no filme Volta ao Trabalho nas Fábricas Wonder, de 1968

 

 

 

O que restou do ano de 1968 na memória dos jovens franceses de hoje? Para responder a essa pergunta o diretor Jean- Gabriel Périot faz uma experiência interessante. Pede a um grupo de rapazes e moças secundaristas que reencene trechos de filmes famosos dos anos rebeldes, tais como A Chinesa, À bientôt, j’espère, Volta ao Trabalho nas Fábricas Wonder, Com o Sangue dos Outros e Camaradas.
 
São clássicos do cinema revolucionário, a começar por A Chinesa, de Godard, de 1967, tido como barômetro que previu a tempestade do ano seguinte. Os outros não ficam atrás, inclusive um trecho de A Salamandra, do suíço Alain Tanner. Não deixa de ser emocionante ver estes jovens de hoje, alunos do Liceu Romain Rolland, de Ivry-sur-Seine, darem novos rostos e gestos àquelas imagens do passado.
 
O resto, no entanto, é desolador. Porque, além das reencenações, o filme é feito de conversas com os jovens, para saber até que ponto entenderam o que haviam interpretado. E, neste ponto, constata-se, sem qualquer dificuldade, a perda de uma cultura política e de um impulso revolucionário ao longo de décadas.
 
Sim, porque política é, também, uma questão de vocabulário. E esses adolescentes franceses mostram-se incapazes de dar definições sequer aproximativas de termos como “revolução”, “capitalismo” e outros. Que estavam na ponta da língua dos seus antecessores dos anos 1960.
 
O crítico Jean-Michel Frodon, em artigo em seu blog na Slate define bem: “O procedimento torna sensível o terremoto que desintegrou toda uma história do pensamento, do vocabulário de descrição do mundo, todo um repertório de referências e uma gramática da ação política”.
 
Em que pese certa monotonia de enquadramentos e a longa repetição de perguntas, o filme é bastante esclarecedor. Num processo de conformismo e adequação, corrói-se um vocabulário e, com ele, uma determinada compreensão do mundo. Quando o ex-presidente Nicolas Sarkozy dizia que a França deveria “esquecer 1968”, proclamava não apenas a necessidade de olhar o presente, mas, mais ao fundo, uma aspiração da direita a uma sociedade domesticada e pronta a aceitar sem discutir. Talvez o trabalho já esteja feito. Mas pode ser que a História ainda reserve surpresas, como é do seu feitio.
 
Fico a imaginar (com terror e tremor) um filme como este feito aqui no Brasil. Qual a memória dos jovens de hoje das lutas dos moços dos anos 1960 e 1970? Qual a lembrança das lutas de antigamente para tantos jovens de hoje, em particular dos que ajudaram a eleger um governo saudoso da ditadura?

 

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