Mostra 2019: Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou
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Mostra 2019: Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou

Luiz Zanin Oricchio

21 de outubro de 2019 | 18h40

Sem qualquer sentimentalismo barato, Bárbara Paz acompanhou o processo de morte de seu marido, o cineasta Hector Babenco (1946-2016) em  Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: parou. O filme é uma beleza e foi premiado no Festival de Veneza como melhor documentário sobre cinema. 

Porque é isso, filme sobre os últimos tempos de Babenco, na luta contra o câncer que acabou por levá-lo, e uma espécie de retrospectiva amorosa de toda a trajetória do diretor argentino radicado há muitíssimos anos no Brasil. Babenco, aliás, à sua maneira desabrida, sempre dizia (e diz no filme) que se sentia um exilado. Os argentinos o consideravam brasileiro, os brasileiros o tinham como argentino. E assim seguiu a vida. Meio outsider, pouco ligado a grupos, chamando-se de anarquista e dizendo o que pensava, mesmo que isso desagradasse as pessoas. 

Fez aqui, e em outros países, seu cinema de muita qualidade: Pixote, Brincando nos Campos do Senhor, Ironweed, Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia, Carandiru, Coração Iluminado, até chegar ao último, O Amigo Hindu, em que ele, e a própria doença, são os personagens principais. 

Bárbara consegue estabelecer uma unidade fotográfica de grande efeito, fazendo tudo em preto e branco, das cenas domésticas, e algumas em hospitais e clínicas, até as dos próprios filmes de Babenco, mesmo que estes sejam, na origem, em cores. 

Há esse refinamento, que é acompanhado pela sutileza da montagem, qualidades que fazem do filme esse perfil amoroso, que não deixa de lado o rigor. Imagino que fosse dessa maneira mesmo que Héctor Babenco gostaria de ser retratado. O filme é um ato de amor. E o amor não precisa, como costuma se dizer, ser cego, surdo ou burro. Pode ser rigoroso também. 

No começo desse texto disse que o filme acompanhava um processo de morte. Mas ele é, de fato, um filme sobre a vida, e de como ela é bela e preciosa. Talvez sua sequência mais bonita seja aquela em que Bárbara dança Singin’in the Rain na filmagem para O Amigo Hindu, sob a vista do seu marido, no melhor momento de sua despedida. Mas há também um desfecho inusitado, filmado num país distante, ideia que sai de um chiste do próprio Babenco. Emocionante. 

 

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