Mostra 2018: Vermelho Sol, preparando o terreno para a ditadura
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Mostra 2018: Vermelho Sol, preparando o terreno para a ditadura

Estranho filme policial argentino mostra a cumplicidade da sociedade civil com a ditadura que se aproxima

Luiz Zanin Oricchio

23 Outubro 2018 | 09h40

Vendo cinco ou seis filmes por dia fica difícil selecionar algum para escrever. Difícil, ainda mais, encontrar tempo para fazê-lo. Enfim, dos seis de ontem, elejo o elegante (e inquietante) policial argentino Vermelho Sol, de Benjamin Naishtat.

Trata-se de uma história estranha, que se desenvolve no começo dos anos 1970, no interior da Argentina. Lá, um advogado (Dario Grandinetti) se envolve num bate-boca de restaurante com um tipo meio lunático. A coisa termina mal.

Ao mesmo tempo, o advogado é sondado por um amigo para uma chicana que consiste em tomar posse ilegal de uma misteriosa casa abandonada. A filha do advogado namora um tipo meio truculento. E, mais para o final da história, entra em cena um misterioso detetive chileno, tão racional quanto fanático religioso, vivido pelo também grande ator Alfredo Castro.

Com relações tensas, o clima de corrupção, o nacionalismo tosco, a ignorância e o medo generalizado, preparam terreno para o golpe militar que se aproxima e só é sentido nas entrelinhas.

A atmosfera é inquietante, raras vezes explícita e mostra como a degradação do tecido social beneficia a chegada de aventureiros sem escrúpulos, salvadores da pátria. A sociedade, a melhor sociedade, é cúmplice e hipócrita, enquanto recita discursos patrióticos, cheios de chavões. A cumplicidade civil com o regime militar que se desenha sela-se nestes pequenos discursos, inócuos só em aparência.

Inútil dizer que, falando da Argentina dos anos 1970, Vermelho Sol em tudo faz lembrar o Brasil de 2018.