Mostra 2018: Alma Clandestina
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Mostra 2018: Alma Clandestina

Alma Clandestina é a emocionante história de Dora. O filme é fundamental num momento em que se tenta "normalizar" a tortura e a ditadura

Luiz Zanin Oricchio

30 Outubro 2018 | 12h21

A atriz Sara Antunes “incorpora” a militante Dora

Em plena ressaca da eleição, foi muito emocionante assistir a Alma Clandestina, de José Barahona. Através de cenas documentais, mas também de encenações, o filme revive a vida breve e trágica de Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dora.

Dora era estudante de medicina quando se engajou na luta armada contra a ditadura militar. Foi presa, torturada, exilou-se e suicidou-se na Alemanha em 1976.

Mulher linda, fala, em cenas documentais, de maneira reta sobre seus ideais, a luta contra o regime militar, a experiência terminal na tortura.

Dora, já no exílio na Alemanha

Deixou cartas e peças literárias. Estas são encenadas por Sara Antunes, em entrega total ao papel.

A sessão foi uma catarse, no inconformismo do público diante da vitória eleitoral de alguém que defende a ditadura e elogia torturadores.

Pobre Brasil. Mas viva o cinema.

Há ainda duas sessões de Alma Clandestina. Hoje, 16h40, no Cinearte 1, e amanhã, 13h30, no Frei Caneca 1. Não perca.

Abaixo, transcrevo a carta do diretor José Barahona, que não pôde vir porque estava em Portugal, onde o filme também estreia:

Boa noite e obrigado por terem vindo, apesar de tudo…

Tinha pensado em escrever estas palavras sem ter em conta a eleição de ontem porque afinal de contas estamos numa democracia e numa democracia qualquer que seja o poder vigente podemos sempre dizer o que pensamos.

Eu não escolhi estrear o filme neste momento. Quando o fiz estava aflito e preocupado com o processo de Dilma e mais tarde com o julgamento e prisão de Lula e achava que por isso o filme era muito urgente. Mas afinal foi outra coisa que o tornou decisivo: Dora decidiu voltar e nos inspirar na resistência que vamos precisar fazer nos próximos tempos.

Brincando com a minha querida Sara Antunes e com o meu amigo Paulo Azevedo, que fizeram o magnífico trabalho que vão assistir, Sara me dizia que tinha de certa forma “incorporado” Dora, o que sua mãe de santo já lhe havia confirmado. Eu não acredito nessas coisas, desculpem sou cético por natureza.

Sara trabalhou muito, e bem e não teve nada de divino nisso, mas sim todo o seu enorme talento. Acredito que o exemplo de coragem de Maria Auxiliadora nos pode ajudar. E vai-nos ajudar muito na nossa luta pela liberdade e pela preservação da nossa querida democracia. Dorinha quer ser ouvida. Ela procurou a câmara de filmar no Chile e a câmara não mais a largou porque ela tinha algo para nos dizer. Esse algo está aqui, neste filme. Dora nos diz sobre a forma como decorreu a delação que conduziu à sua prisão: “ Medo? Não tive medo. Eu fiquei triste por me sentir enganada”.

Não estou aí convosco porque o filme estreou há dois dias em Lisboa numa sala com mais de duzentas pessoas onde no início da sessão descerramos uma faixa pedindo menos violência no Brasil e mais democracia. Foi uma sessão muito forte e emotiva cheia de brasileiros e portugueses.

Este filme agora é vosso e deixa de ser meu. É o filme que eu devia ao Brasil, que tanto me deu e que tanto me dá. Poderia ter sido um filme da festa da vitória?

Talvez não. Mas eu espero que a realidade do Brasil não chegue nunca mais ao extremo daquilo que vão ver e ouvir aqui hoje. Este pode ser sim um dos filmes da resistência.

Nos dois casos, da vitória ou da derrota, que é o que hoje temos em cima das costas, eu sempre diria sobre o filme resumidamente isto: Nós fazemos estes filmes para que estas coisas nunca mais voltem a acontecer. Estas coisas não podem voltar a acontecer. Nunca mais.

Muito obrigado e boa sessão

José Barahona