Mostra 2017. ‘O Pacto de Adriana’, imersão no horror da ditadura chilena, vence a Mostra
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Mostra 2017. ‘O Pacto de Adriana’, imersão no horror da ditadura chilena, vence a Mostra

Diretora chilena descobre que sua própria tia fazia parte da DINA, a famigerada polícia política da ditadura militar de Augusto Pinochet, instaurada com o golpe de Estado que derrubou Salvador Allende

Luiz Zanin Oricchio

02 de novembro de 2017 | 14h25

O Pacto de Adriana, do Chile, venceu o principal prêmio da 41ª Mostra. O que é este filme? O relato de um corajoso processo de descoberta pessoal e política da diretora Lissete Orozco.

Nas primeiras sequências, ela mostra imagens da figura forte de sua família, a tia Adriana, que ela chama de Tia Chany. Era a alegria das festas, xodó das sobrinhas, presença marcante para a qual todos olhos e ouvidos convergem quando entra numa sala.

Depois a Tia Chany foi morar no exterior, de maneira um tanto misteriosa para a menina. Até que os fios começam a ser puxados. Titia fizera parte do regime de Pinochet, trabalhando na famigerada DINA. Respondera processo, conseguira sair do país, vivia na Austrália.

A sobrinha a contata por Skype. Vai atrás de colegas de “trabalho” da tia, ouve pessoas. Escuta depoimentos de estarrecer. Tia Chany, aliás Adriana Rivas, nega tudo. Não sabia, jamais viu um preso político, soubera depois que “coisas horríveis” aconteciam, mas nada tinha a ver com isso.

Testemunhas negam suas desculpas. Era íntima de Manuel Contreras, chefe da DINA, um dos assassinos mais brutais do governo Pinochet. Ela não omite que frequentou essa gente e usufruiu dos privilégios do poder. Aliás, admite que aqueles foram os melhores anos de sua vida. “Eu era de origem humilde, quem imaginaria que um dia estaria em embaixadas, ao lado de presidentes da república?”, deslumbra-se.

De acordo com ela, era apenas uma secretária, que se tornou útil porque sabia inglês. Depois fez um curso sobre inteligência militar e capacitou-se mais para servir ao regime. Sobreviventes do regime de Pinochet lembram-se dela. O jornalista Javier Rebolledo, autor de um livro sobre a DINA, lembra-se de que a política desse tipo de organização era “não deixar ninguém de fora”. Todos deveriam ter as mãos sujas de sangue. Desse modo, criava-se um pacto em que ninguém poderia incriminar ninguém pois todos eram cúmplices. Um pacto de assassinos.

O que impressiona no filme é o destemor da diretora de mergulhar em suas próprias memórias e nas da sua família para desvendar mais uma página cruel da história chilena durante a ditadura. O filme nos surpreende e sobressalta a cada momento. Lissete Orozco pratica uma arqueologia do horror, escavando em terreno próprio e familiar, sem se poupar. Poucas vezes se viu tamanha coragem no cinema.

Parabéns ao júri por ter escolhido como vencedor filme tão destemido quanto fundamental.

A premiação completa, você encontra abaixo.

 

TROFÉU BANDEIRA PAULISTA 2017

PRÊMIO DO JÚRI INTERNACIONAL

Após serem exibidos na 41ª Mostra, os filmes da seção Competição Novos Diretores mais votados pelo público foram submetidos ao Júri Internacional, que escolheu o documentário chileno O Pacto de Adriana, de Lissette Orozco, como vencedor do Troféu Bandeira Paulista (uma criação da artista plástica Tomie Ohtake).

Conheça o filme premiado pelo júri internacional:

MELHOR FILME

  • O PACTO DE ADRIANA (EL PACTO DE ADRIANA), de Lissette Orozco

CHILE

Júri Internacional: Diego Lerman, Eran Riklis, Henk Handloegten, Luís Urbano e Marina Person

PRÊMIO PETROBRAS DE CINEMA

E pela primeira vez, a 41ª Mostra contemplou dois filmes brasileiros com o Prêmio Petrobras de Cinema num total de R$ 300 mil, sendo R$ 200 mil para o melhor longa de ficção e R$ 100 mil para o melhor longa documentário. O objetivo do Prêmio é apoiar a distribuição dos respectivos filmes em pelo menos 15 salas e cinco praças ao longo dos primeiros 90 dias de lançamento comercial, no caso da ficção, e 10 salas e três praças no mesmo período, para o documentário. Os títulos selecionados foram avaliados por júris especializados, convidados pela direção do evento, que escolheram as produções (ficção) e (documentário) para receberem os prêmios.

Conheça os filmes contemplados com os prêmios:

MELHOR FILME BRASILEIRO DE FICÇÃO

  • AOS TEUS OLHOS (Aos Teus Olhos), de Carolina Jabor

BRASIL

Júri Petrobras – Ficção: Adhemar Oliveira, Ana Luiza Azevedo, Carolina Kotscho, Di Moretti e Paulo Sacramento

MELHOR DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO

  • EM NOME DA AMÉRICA (Em Nome da América), de Fernando Weller

BRASIL

Júri Petrobras – Documentário: Alcino Leite Neto, Beto Brant, Cristina Amaral, Eliane Caffé e Marcelo Gomes

PRÊMIO DO PÚBLICO

Além dos prêmios outorgados pelo Júri Internacional, o público da 41ª Mostra escolheu, entre os estrangeiros, o melhor filme de ficção (Com Amor, Van Gogh) e o melhor documentário (Visages, Villages), e os melhores brasileiros nas duas categorias (a ficção Legalize Já e o documentário Tudo É Projeto).

A escolha do público é feita por votação. A cada sessão assistida o espectador recebeu uma cédula para votar com uma escala de 1 a 5, entregue sempre ao final do filme. O resultado proporcional dos filmes com maiores pontuações determina os vencedores.

Conheça os filmes premiados pelo público:

MELHOR FILME INTERNACIONAL DE FICÇÃO

  • COM AMOR, VAN GOGH (Loving Vincent), de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

POLÔNIA e REINO UNIDO

MELHOR DOCUMENTÁRIO INTERNACIONAL

  • VISAGES, VILLAGES (Visages, Villages), de Agnès Varda e JR

FRANÇA

MELHOR FILME BRASILEIRO DE FICÇÃO

  • LEGALIZE JÁ (Legalize Já), de Johnny Araújo e Gustavo Bonafé

|BRASIL

MELHOR DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO

  • TUDO É PROJETO (Tudo É Projeto), de Joana Mendes da Rocha e Patricia Rubano

BRASIL

PRÊMIO DA CRÍTICA

A imprensa especializada que cobre o evento e tradicionalmente confere o Prêmio da Crítica, também participou da premiação elegendo Gabriel e a Montanha como o melhor filme brasileiro, Custódia como o melhor dos estrangeiros e contemplando o longa Visages, Villages com o Prêmio Especial do júri da Crítica.

Conheça os filmes premiados pela crítica:

MELHOR FILME BRASILEIRO

  • GABRIEL E A MONTANHA (Gabriel e a Montanha), de Fellipe Barbosa

BRASIL e FRANÇA

Pela forma original de revelar um universo com olhar aberto ao novo e aos encontros. Pela habilidade de unir atores de formação e de vida, pela coragem de promover o diálogo entre as linguagens.

MELHOR FILME INTERNACIONAL

  • CUSTÓDIA (Jusqu’à La Garde), de Xavier Legrand

FRANÇA

Pelo rigor e precisão no desenvolvimento da tensão de uma narrativa que aborda com originalidade um tema incômodo e universal, a violência doméstica.

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI DA CRÍTICA

  • VISAGES, VILLAGES (Visages, Villages), de Agnès Varda e JR

FRANÇA

Por sua crença no poder revelador e transformador da Imagem. Um fascinante road movie que busca e encontra, com humor e poesia, rostos e vidas esquecidos em vilarejos e portos franceses.

PRÊMIO DA ABRACCINE

 

A Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema também realiza tradicionalmente uma premiação que, nesta edição, optou por escolher o melhor filme brasileiro entre os realizados por diretores estreantes (primeiro filme), que, neste ano, foi o longa Yonlu, de Hique Montanari.

  • YONLU (Yonlu), de Hique Montanari

BRASIL

 

Júri – Prêmio Abraccine: os jornalistas e críticos Daniel Medeiros, Rosane Pavam e Sergio Rizzo

 

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