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Morte e ressurreição do cinema político

Luiz Zanin Oricchio

13 de outubro de 2006 | 20h26

A morte de Gillo Pontecorvo e a retrospectiva que a Mostra vai fazer sobre o cinema político italiano (com 27 filmes e lançamento de um livro sobre o assunto) podem nos ajudar a compreender melhor esse gênero. Como se sabe, ele floresceu entre os anos 60 e 70? Por acaso? Creio que não: na época eles simplesmente refletiam um anseio que existia na sociedade, pedindo a compreensão dos fatores políticos em jogo. Essa atitude saiu de cena, a partir dos anos 80, quando aparentemente a economia passou a governar o mundo, sem concorrência de outros fatores, os políticos entre eles. Não que a política tenha deixado de existir. Simplesmente o homem comum (todos nós) acabou achando que 1) a política era assunto de políticos, o que é um engano. 2) seria uma coisa suja em que nós, que temos as mãos limpas, não deveríamos tocar.

Saindo do horizonte social, confinada aos “especialistas”, era natural que a política desaparecesse também do horizonte artístico e portanto cinematográfico. O que pode explicar por que os poucos filmes ditos políticos, feitos hoje em dia, nos parecem tão insatisfatórios, como são os casos de O que É Isso, Companheiro?, Doces Poderes, Ação entre Amigos e tantos outros. Eles não nos ajudam a compreender o que se passa na sociedade e na distribuição do poder entre os homens.

Rever esses filmes italianos dos anos 60 e 70 pode nos ajudar a entender que a política não se resume em ter de escolher entre Lula e Alckmin. Vai além e significa tentar compreender o que cada um deles representa e a que interesses atende, o que é outra história bem diferente. O cinema político teve vez enquanto havia o desejo maduro de se entender o funcionamento da sociedade. Quando esse desejo cedeu vez ao individualismo atual, ele saiu de cena, ou pelo menos perdeu a importância que tinha. Ainda pode voltar. Basta que volte o desejo de compreender e de intervir. É uma questão de maturidade, só isso.

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