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Morreu Ozualdo Candeias, papa do Cinema Marginal

Luiz Zanin Oricchio

08 Fevereiro 2007 | 17h14

Aos 88 anos, morreu o diretor Ozualdo Candeias, considerado um dos papas do cinema dito “marginal”. Candeias, que faleceu de insuficiência respiratória no Hospital Brigadeiro, era, talvez, o nome mais representativo do Cinema da Boca do Lixo, que se fez na região onde fica a atual Cracolândia, no Centro de São Paulo, em especial na rua do Triumpho. Tinha duas carteiras de identidade. Numa, o ano de nascimento era 1922. Noutra, 1918. Sua filha diz que o ano correto é 1918. Fiquemos com essa data.

O primeiro longa-metragem de Candeias, de 1967, tem o título-manifesto de A Margem. Depois prosseguiria a carreira com filmes como A Herança (1971), Caçada Sangrenta (1973), Manelão, o Caçador de Orelhas (1982) e As Belas da Billings (1987), entre outros. Concorreu no Festival de Brasília de 1992 com O Vigilante.Com mais de 70 anos na ocasião, foi à capital pilotando sua moto, pois não andava de avião.

Candeias tinha o sentido da imagem. Era um intuitivo, pouco ou nada teórico, e havia aprendido a dirigir exercendo as várias funções do cinema, produtor, cinegrafista, continuísta. A experiência sempre teve precedência sobre a reflexão. Antes de chegar ao cinema, esse paulista de Cajubi foi office-boy, lustrador de móveis, metalúrgico, criador de cavalos no Mato Grosso e sargento da Aeronáutica. Quando começou a se interessar por cinema, comprou uma câmera de 16 mm e livros de técnica cinematográfica. Tornou-se autodidata, e a experiência direta na Boca do Lixo completou a formação.

Apesar disso, tinha uma sofisticação oculta que lhe permitiu adaptar Hamlet, de Shakespeare, sob o título de A Herança, sem diálogos, com temas e ambientação brasileiros e tocadores de viola fazendo as vezes de coro. Sua incorporação de tipos populares (com os quais conviveu) às tramas, seu desprezo pelo bom gosto, que chamava de “burguês”, e uma liberdade muito grande na hora de filmar o tornaram uma referência para cineastas tidos como “malditos”, como Rogério Sganzerla, José Mojica Marins e Carlos Reichenbach.

O Vigilante foi seu último longa. Como em todos os anteriores, seus heróis eram a gente do povo. No caso, bóias-frias que, sem grandes perspectivas no interior de São Paulo, vão tentar a sorte na capital. Caem, inevitavelmente, na periferia da cidade, onde impera a lei do cão. Um deles se torna vigilante de uma empresa e descobre logo em seguida que pode trabalhar melhor por conta própria, ou seja, como “justiceiro”. Já em Manelão,um fazendeiro ajuda o protagonista a se curar de uma doença venérea e em troca exige que ele se torne pistoleiro.

Esses eram os temas e personagens preferenciais para Candeias, impostos talvez por sua visão de mundo. Nela, o forte come o fraco e este tem de se fazer de forte, ou esperto, se quiser sobreviver.

Candeias, que tinha uma visão bastante artesanal do seu trabalho e não aceitava o rótulo de primitivista, sempre colocou em primeiro plano os deserdados da existência. Atenta, a censura do governo militar não se deixou iludir pelo suposto caráter ingênuo de alguns dos seus filmes e os proibiu, como foi o caso de Caçada Sangrenta (1973). Médias-metragens como Zezéro e Candinho iam a contrapelo da euforia fictícia do governo militar e tiveram circulação quase clandestina, subterrânea.

Há alguns anos, o Centro Cultural Banco do Brasil fez uma revisão de sua obra e Candeias ganhou um catálogo caprichado, cheio de artigos elogiosos e referências eruditas. Era a redenção do “maldito”.