As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Morreu Leonhardt, músico e ator de Straub

Luiz Zanin Oricchio

05 de fevereiro de 2012 | 16h09

Morreu Gustav Leonhardt, aos 83 anos, e os obituários se limitaram à área da música clássica. (Leia o texto de João Marcos Coelho). Natural, Leonhardt foi uma sumidade em sua área, a música barroca, em especial a de Johan Sebastian Bach. Mas não se deve esquecer que ele foi também ator – pelo menos em um filme famoso, no qual interpreta o compositor a quem dedicou toda uma vida. Sim, Bach, que ele vive num filme à primeira vista dedicado à segunda esposa do compositor, Crônica de Anna Magdalena Bach, considerado uma das obras-primas do casal Jean Marie Straub-Danièlle Huillet.

É um filme comovente, e mais ainda por seu rigor de concepção. Suas primeiras cenas já dizem tudo do método adotado. Vemos Bach interpretando ao cravo o longo trecho escrito para este instrumento no final do Allegro do Concerto de Brandeburgo nº 5. Notamos, ao instrumento, um virtuose real, sem qualquer trucagem ou o facilitário de filmar de um ângulo em que as mãos não são vistas. Nenhuma surpresa quando se sabe que o intérprete de JS Bach é o virtuose holandês Gustav Leonhardt, também professor e musicólogo, defensor da ideia de que as obras devem ser executadas por instrumentos de época, porque neles e para eles foram concebidas e pensadas.

A cena é vista a partir de um ângulo fixo, com a câmera parada. No principio centrada sobre o solista e suas mãos, ela em seguida se afasta para abarcar o resto da pequena orquestra quando esta é solicitada a entrar no jogo da música, e então se detém. Esse será o estilo dominante ao longo do filme. A câmera obediente às necessidades da música. Simples, rigorosa, depurada ao máximo. A narração, em off, limita-se quase sempre a trechos do diário de Anna Magdalena (Christiane Lang, esposa de Leonhardt na vida real).

Na verdade, Crônica é um filme sobre Bach, filtrado pelo olhar de sua esposa, cantora e filha de oboeista que ele conheceu em Köthen um ano depois de enviuvar. Se a minissérie dedicada a Bach por Lothar Bellag (disponível em DVD da Versátil) procura detalhar a trajetória de Bach, o longa-metragem de Huillet-Straub parece concentrar-se ainda mais sobre a arte – e também sobre o ambiente em que ela surge. Daí o cuidado, o detalhismo aplicado aos cenários, roupas e postura dos atores. Servem ao propósito de imergir o filme no ambiente do barroco para dele tirar a essência mesma do seu gênio musical maior.

Mais que ser um filme sobre Bach, poderíamos dizer que Crônica é um filme bachiano, por definição. Não apenas pela subordinação da câmera à música, mas pela encenação dramática própria do barroco, em que tudo “fala” entre si e se articula, da arquitetura à música, passando pelas vestimentas. Na maneira rigorosa como o filme é trabalhado, há uma aliança lógica com a música exata proposta por Bach, ligada à matemática, à mathesis universalis de que fala a filosofia. Um mundo de relações matemáticas que se expressam no universo, no movimento dos astros, no espírito, nas artes, nas letras. Tudo é uno e funciona segundo um princípio geral.

Mas há também a desordem do mundo e sua dramaticidade, e estas não estão contempladas na música das esferas. Bach, seus problemas de sobrevivência e sua doença, que o fez perder a visão depois de uma cirurgia fracassada. A morte, talvez por apoplexia, aos 65 anos, deixando Anna com uma fieira de filhos para cuidar. Pelo que se sabe, os mais velhos, seus enteados, ainda trapacearam na herança do pai e a deixaram em más condições. Anna Magdalena sobreviveu 10 anos a Bach e foi enterrada como indigente em Leipzig.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: