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Morreram Millôr Fernandes

Luiz Zanin Oricchio

28 de março de 2012 | 13h53

Outro dia um jornal deu esse título ao obituário de Chico Anysio. ‘Morreram Chico Anysio’. Sem fornecer o crédito *, devido a Carlos Drummond de Andrade sobre o falecimento de Cacilda Becker. Na época, Drummond tascou lá: Morreram Cacilda Becker para (genialmente) indicar o desaparecimento da atriz e a sua multiplicidade.

O uso poético da concordância verbal “errada” (porém certíssima) de fato se aplica a Chico Anysio, inventor de mais de 200 personagens. E cabe também a Millôr, humorista, escritor, dramaturgo, tradutor, frasista e etc.

Os obituários de Millôr, que se foi aos 88 anos, já estão por aí e não sou eu quem vai ficar aqui caindo em redundância.

Basta dizer que, dentro da sua multiplicidade, Millôr me pareceu muito próximo e vibrante na época do Pasquim e nos anos seguintes. Ninguém, cuja opinião valesse alguma coisa, deixava de lê-lo. Depois, meio que me distanciei dele. Me parecia que sua crítica política, equidistante até a esterilidade, parecia próxima a um esplêndido isolamento que não condizia muito com as exigências da vida real. A shit do dia a dia, em que precisamos botar as mãos se quisermos fazer alguma coisa. A frase é de Sartre, não minha.

Sentia também Millôr meio distante da vida, como se o Brasil e o mundo o entediassem. Quem pode culpá-lo, no fundo? Quando se vai vivendo muito, e sendo inteligente como ele, vai ficando difícil se acomodar à baboseira cotidiana. É a chamada fadiga do material.

Mas esse retiro cobra seu preço. Daí não me surpreender com a reação da massa ignara nas redes sociais e a pergunta boçal que anda por aí: Quem foi esse tal de Millôr, de que tanto falam?

O Brasil ficou assim. O mundo ficou assim. Ninguém emprega mais qualquer esforço em qualquer coisa, a não ser passar a noite numa fila para comprar um gadget eletrônico que será obsoleto em uma semana.

O tempo de Millôr já havia passado, talvez. Mesmo a sua veia crítica, quando se manifestava,  já parecia inócua.

Aliás, cabe a pergunta: qual será a crítica possível e eficaz para um mundo massificado, bovino, estupidificado e que só pensa em consumir?

O chato não é gente como Chico Anysio e Millôr Fernandes saírem de cena. Afinal, toda vida tem seu limite biológico. Chato é ver quem fica no lugar deles.

*Acrescentado depois: leitores me dizem que leram o título em O Dia e que o jornal deu o devido crédito ao poeta. Assim vale. Erro meu. 

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