Morre o cineasta Paulo Cezar Saraceni (1933-2012)
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Morre o cineasta Paulo Cezar Saraceni (1933-2012)

Luiz Zanin Oricchio

14 de abril de 2012 | 23h23

 

Morreu hoje, aos 78 anos, o cineasta carioca Paulo Cezar Saraceni, um dos nomes mais importantes do Cinema Novo. Sarra, como os amigos o chamavam, estava internado no Hospital Federal da Lagoa, onde se tratava das consequências de um AVC sofrido no ano passado. Morreu de falência múltipla de órgãos.

Com seus dois primeiros longas metragens, Saraceni deixa sua marca decisiva na cultura dos 1960. Não se compreende essa época sem se passar por Porto das Caixas (1962) e O Desafio (1965). Um, fincado no terreno pessoal, dos afetos; outro, no político, e no social. Ambos mostravam um cineasta cheio de energia, ideias e disposição para a invenção formal.

Em 1968, dirigiu uma pouco convincente adaptação do romance de Machado de Assis Dom Casmurro, roteirizado pelo casal Lygia Fagundes Telles e Paulo Emilio Salles Gomes. Nem mesmo essa origem ilustre – o maior escritor brasileiro e dois dos melhores intelectuais patrícios – conseguiu salvar o filme. A protagonista Isabella, à época mulher de Saraceni, não ajudava no papel de Capitu, a heroína dúbia de Machado. Não tinha physique Du role. Dificilmente nela se via a moça esquiva, ambivalente, de “olhos de ressaca” de que fala Machado. Da mesma forma, o filme não tem de Dom Casmurro o maior mérito da obra, a sua ambiguidade permanente – a impossibilidade de saber com certeza se Capitu traiu Bentinho com Escobar ou se tudo não passa de distorção causada pelo ciúme doentio do narrador.

Por outro lado, Saraceni movia-se com familiaridade e acerto no universo de outro escritor, o mineiro Lúcio Cardoso, de quem adaptou o romance mais famoso, Crônica da Casa Assassinada (reduzindo o título para Casa Assassinada), em 1970. Carlos Kroeber fazia o papel principal.

Saraceni voltaria, quase três décadas depois ao universo decadente e atormentado de Cardoso com O Viajante (1999), adaptado de um romance inconcluso do escritor mineiro. No filme, Marilia Pêra tem um dos seus grandes papéis no cinema, como a viúva que sacrifica do próprio filho doente em nome do amante. É dos melhores filmes da época do cinema brasileiro conhecida por Retomada, quando a cinematografia renascia do estrago causado pelo governo Collor. É também um dos títulos mais intensos da carreira de Saraceni.

Uma trajetória cuja importância já vinha dos tempos do curta-metragem quando, com Arraial do Cabo (1960) inspira toda uma estética ainda em gestação, e que viria a ser o Cinema Novo. Arraial do Cabo e outro curta-metragem, Aruanda, do pernambucano radicado na Paraíba, Linduarte Noronha cumpriram esse papel de abridores de caminho. Quis o destino que esses dois pioneiros, Linduarte e Saraceni, morressem no mesmo ano, com a diferença de poucos meses.

Cineasta de filmografia pouco numerosa, Saraceni ainda fez Amor, Carnaval e Sonhos (1972), Anchieta José do Brasil (1977) e Ao Sul do Meu Corpo (1982), este baseado no conto de Paulo Emílio, Duas Vezes com Helena, texto depois refilmado por Mauro Farias. Natal da Portela (1988) é uma interessante cinebiografia do famoso bicheiro carioca, interpretado por Milton Gonçalves. O filme, apesar da concepção original e de alguns momentos inspirados, é muito irregular.

Em 1993, Saraceni lançou o livro Por Dentro do Cinema Novo, no qual narra sua trajetória cinematográfica e pessoal. Como um coisa se confunde com a outra, a obra despertou polêmica. Rapaz bonito e atlético quando jovem (chegou a jogar no Fluminense), Saraceni era um assumido homme à femmes. Não escondia suas conquistas e, por isso, o livro provocou enorme tititi quando lançado. Prestou-se mais atenção ao que ele continha de revelações de alcova do que de revelador sobre os bastidores do Cinema Novo. É um documento de época importante, digno de ser relido com olhos menos moralistas.

Os destaques da obra de Saraceni são Porto das Caixas, com sua estética bastante moderna, retratando a solidão e a carência que levam ao crime, inspirado numa história real da crônica policial e baseado num roteiro original de Lucio Cardoso. A música de Tom Jobim completa o ambiente muito bem composto. Com as outras duas incursões à obra de Lucio Cardoso, A Casa Assassinada e O Viajante (ambos também musicados por Jobim) forma o que  chamou de Trilogia da Paixão. São três exemplares perfeitos da imersão de um homem lúcido nas contradições e paroxismos do sentimento humano. Podem ser “lidos” como obra única.

Já com O Desafio (1965), Saraceni reflete sobre a posição do intelectual diante do golpe de Estado de 1964 através do personagem do jornalista interpretado por Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha. É obra a ser cotejada (não comparada, por favor) a Terra em Transe, de Glauber Rocha, que viria dois anos depois, em 1967. Ambas se complementam no pasmo como na tentativa de compreensão do golpe que instaurou a ditadura no País.

Alguns dos seus últimos trabalhos foram no campo documental. Em 1996 terminou Bahia de Todos os Sambas, que fora iniciado por Leon Hirszman e jamais terminado, com imagens de Caetano, Gil, João Gilberto, Gal e Bethânia à Itália. Em Folia de Albino – a Banda de Ipanema (2003), Saraceni faz um registro doméstico de seu amigo Albino Pinheiro e das folias ipanemenses, que faziam a sua alegria. Simpático.

O último trabalho de Paulo Cezar Saraceni foi O Gerente, adaptação de um conto de Carlos Drummond de Andrade, cujo personagem tem o estranho hábito de morder mulheres. Permanece inédito no circuito comercial.

Com seu talento e inspiração, talvez Saraceni, em outras circunstâncias, poderia ter produzido obra mais extensa. Mas os entraves da produção cinematográfica no Brasil, aliados a circunstâncias da vida pessoal não permitiram. Mas por que falar do que poderia ter sido e não foi? O que ele deixou vale. E muito.

Principais filmes

Arraial do Cabo (1959/60). Curta-metragem. Documenta a vida dos pescadores, numa época de transformação que ameaça a sua sobrevivência

Porto das Caixas (1962). Inspirado no chamado “crime da machadinha” conta a história de uma mulher que mata o marido em cumplicidade com o amante. Com Irma Alvarez, Reginaldo Faria

O Desafio (1965). Após o golpe de 1964, o jornalista Marcelo se sente impotente diante dos acontecimentos. Atravessa também uma crise amorosa. Com Oduvaldo Viana Filho e Isabella.

Casa Assassinada (1970). Chegada de Nina, uma jovem carioca perturba o marasmo doentio de uma família em Minas. Com Carlos Kroeber e Norma Bengell.

O Viajante (1999). Um homem de passagem seduz uma viúva de meia-idade que cuida do filho, nascido com problemas mentais. Com Marilia Pêra e Jairo Mattos.

 

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