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Morango e Chocolate: rito de passagem na Cuba de Fidel)

Luiz Zanin Oricchio

04 de junho de 2012 | 08h22

Em 1994 um filme cubano estourava nos mercados do mundo. Morango e Chocolate, dirigido por Tomás Gutiérrez Alea (o maior cineasta da ilha) e Juan Carlos Tabío, mostrava o complicado relacionamento entre um homossexual e um militante revolucionário. O filme serviu também para fazer a fama internacional de um dos intérpretes, o sofisticado Diego, vivido por Jorge Perrugoría, que contracenava com Vladimir Cruz, este no papel do em princípio tacanho David. A história é tirada de um texto de nome estranho e alusivo, El Lobo, el Bosque y el Hombre Nuevo, de Senel Paz, autor que se fez conhecido justamente pelo prêmio Juan Rulfo recebido por este conto.

É o conto que, rebatizado segundo o filme que o tornou famoso, dá título à coletânea de relatos de Senel Paz que a Geração Editorial está lançando. O volume, composto de Morango e Chocolate e mais três histórias, é traduzido por Eric Nepomuceno, que também escreve um prefácio sobre o autor. Nele, ficamos sabendo que Senel Paz nasceu em 1950, numa cidade chamada Fomento, na província de Sancti Spíritus, em Cuba. Senel era um garoto quando os barbudos expulsaram o ditador Fulgencio Batista da ilha e entraram em Havana para dar início a um novo ciclo histórico. É, portanto, um legítimo filho da revolução cubana, em sua primeira hora.

Esse é um dado importante. Senel não “fez” a revolução – era apenas uma criança na época. Mas todo o seu período de formação dá-se no quadro do movimento, experimentando suas fases sucessivas – da mais “romântica e idealista” dos primeiros anos aos percalços do alinhamento com a União Soviética.

Esse contexto é importante para entendermos esse conto de 1990 – e também um aspecto da literatura de Senel Paz e de outros escritores de sua geração e formação. O conto expressa, de certa forma, e num domínio específico, o que a revolução poderia ter sido e não foi. Daí a alusão, no título original, ao “homem novo” de que falava Che Guevara. Essa nova modalidade de ser humano, parido pela revolução, podemos imaginar, teria tanto desprezo pelo consumismo e os incentivos materiais do capitalismo quanto pelos preconceitos de raça ou sexo. Mas não foi assim e talvez tenha sido um delírio guerrilheiro imaginar que traços tão arraigados da cultura pudessem ser extirpados de uma hora para outra. Há, em todo caso, um tom de certa decepção, expressa já no título.

Por outro lado, Senel Paz faz parte daquele grupo de artistas que, embora descontentes com os rumos da revolução, optaram por não abandonar o país. Não se exilaram em Miami e exercem seu dispositivo crítico do interior do país, com todas as dificuldades que isso comporta. Por falar nisso, nesse ponto Senel é muito parecido com o próprio cineasta que adapta sua obra. Muito mais velho que o escritor, Gutiérrez Alea (1928-1996) foi um homem da revolução, mas não a poupou de críticas em filmes como A Morte de um Burocrata (1966), Memórias do Subdesenvolvimento (1968), Guantanamera (1996) e no próprio Morango e Chocolate.

Alea encontrou material fértil para reflexão nesse relato de Senel Paz, que põe em cena dois personagens contraditórios, Diego, sofisticado, porém perseguido por suas preferências sexuais; David, militante um tanto tosco mas intelectualmente curioso. Os dois se conhecem num lugar dos mais badalados de Havana, a imensa sorveteria Coppelia, no bairro do Vedado. Diz a lenda que Fidel Castro a teria feito construir para que os cubanos pudessem desfrutar de delícias antes privilégio das classes superiores da ilha.

Na mesa da Coppelia, Diego inicia um processo claro e aberto de sedução. David, que é uma espécie de espião do Partido, deixa-se levar. Nem tanto por senso do dever, mas por curiosidade em relação ao personagem de Diego, homem de certa influência no meio intelectual e proprietário de muitos livros (alguns proibidos). Enfim, as oposições são muito claras entre os dois personagens e simbolizam, através do confronto machismo x homossexualidade outros pontos sensíveis. Entre eles, um que é frequente entre as queixas dos intelectuais – que a sofisticada cultura cubana, em especial no âmbito literário, teria sido asfixiada pela rigidez e intolerância dos primeiros revolucionários.

Não por acaso, o ponto alto do relacionamento entre os dois se dará no “almoço lezamiano” preparado por Diego para David. A passagem baseia-se na descrição de um festim gastronômico em Paradiso, a obra-prima do escritor Lezama Lima, ídolo e modelo de Diego. Tem valor de rito de passagem e significa que David, antes bruto, agora está apto para ingressar no mundo da alta cultura que até então lhe havia sido negado. E também pronto para abdicar dos preconceitos que uma cultura machista lhe havia inculcado. É um passo civilizatório. A significar, no fim de contas, que esse mesmo projeto de civilização pode ser desenvolvido no interior da revolução, e não de seu exterior, mesmo que o desfecho seja ambíguo a esse respeito.

Os outros três relatos que compõem o volume são de ótima fatura literária, embora, compreensivelmente, fiquem em segundo plano diante da importância de Morango e Chocolate. Debaixo do Salgueiro Chorão conta, em primeira pessoa, a experiência de um garoto que vai ver pela primeira vez o pai. Não Diga Eu Te Amo relata uma inspirada iniciação amorosa do narrador. E O Anjo Yhosvany é uma divertida crônica havanera, na qual o narrador se deixa envolver por um pilantra do centro da capital, uma figura típica. São contos simples, porém de várias camadas de compreensão, escritos em linguagem depurada, com perfume local de Havana e essa malícia tão cubana, temperada de ternura e ironia.

(Sabático)

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