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Monstro simboliza o mal-estar na cidade

Luiz Zanin Oricchio

20 Maio 2007 | 10h40

O cinema coreano é sempre digno de atenção. Até mesmo pela situação do seu mercado interno: detém mais de 50% das vendas de ingresso, uma das mais altas taxas mundiais em relação ao produto americano. Produz entre 80 e 100 longas por ano, isso para uma população de cerca de 50 milhões de habitantes. Verdade: dessa produção, boa parte é de ação e artes marciais. Mas há entre seus cineastas nomes de prestígio no circuito de ‘arte e ensaio’, e com cadeira cativa em grandes festivais, como Kim Ki-Duk e Park Chan Wook.

Este O Hospedeiro, de Bong Joon-Ho, nada tem de intelectual. É um filme de gênero, com alguns toques de originalidade visual, marca registrada desse cinema coreano que tem chegado até nós. A história é a de um monstro que surge no rio e passa a atacar os moradores da cidade e a seqüestrar alguns deles. É o que acontece com a filha caçula de uma família dona de um quiosque.

Ok, a ‘criatura’ é trash mesmo; gosmenta, comme il faut. De outro lado, o diretor evita alguns clichês. Por exemplo, o primeiro ataque é feito à luz do dia, e não entre as sombras, como costuma acontecer no gênero. Lembre que os ataques de avião em Intriga Internacional também eram feitos em plena luz. Aliás, Hitchcock fez questão disso para evitar o lugar-comum do ‘mal vindo das sombras’.

É um detalhe. Mas, como se sabe, detalhes são importantes (até para o Roberto Carlos e seus biógrafos). São eles que dão certo alcance a este filme de outra forma modesto. O monstro que ataca sem qualquer objetivo claro e se esconde nos esgotos da cidade moderníssima não deixa de apontar para alguma coisa da nossa condição contemporânea. Há uma inquietação com este mundo, que transpira na maneira como as imagens são construídas, muito mais do que no texto de O Hospedeiro, este sim banal.

(SERVIÇO)Serviço O Hospedeiro (Gwoemul,Coréia do Sul/2006, 119 min.) – Terror. 14 anos.Cotação: Regular