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Molière

Luiz Zanin Oricchio

19 de julho de 2008 | 08h39

Um Molière moderno, sexy, cheio de energia – assim o diretor Laurent Tirard retratou uma das glórias do seu país, o dramaturgo, aliás, comediógrafo, Jean-Baptiste Poquelin (1622-1673), autor de clássicos como O Burguês Fidalgo, O Doente Imaginário e Escola de Mulheres. Retratá-lo significava um risco para Tirard. Poderia fazer uma leitura reverente da vida de Molière – afinal, ele é um dos autores mais estudados do seu país e fundador da Comédie Française. Mas então haveria o perigo de deixar em segundo plano uma das melhores características de Molière, a irreverência, a inteligência mordaz. Poderia, por outro lado, tentar ver o que há de atual nos textos e na vida desse autor do século 17 – e, nesse caso, haveria o risco de despertar a ira daqueles que o cultuam como um dos fundadores do teatro moderno, isto é, um clássico intocável.

Por sorte, Tirard tomou esse segundo caminho e assim nos traz esse Molière desenvolto, bem parecido ao que seria um jovem contemporâneo de talento, não fossem as roupas e cenários de época, todos bem caprichados, diga-se. Quem o interpreta é Romain Duris, rapaz bonito porque, diz Tirard, queria fazer o retrato de um homem desejável. Teve uma boa sacada: de autor tão estudado, escolheu para descrever na tela justamente um período misterioso, que os biógrafos hesitam em tratar por falta de informações seguras. Antes de escrever suas peças mais famosas, e se tornar conhecido, Molière viveu cerca de dez anos misteriosos, dos quais pouco se sabe. Imagina-se que tenha perambulado com sua trupe pelo interior da França, vivendo da apresentação de espetáculos em pequenas cidades. Ou seja, Poquelin aprendia, observava e, da vivência, cozinhava a experiência que colocaria depois em personagens de extraordinária densidade. Ninguém já nasce feito e Tirard prefere, portanto, especular sobre a formação do dramaturgo.

Nessa trajetória, interessava apresentar tipos que mais tarde seriam encontrados em peças famosas, como Monsieur Jourdain, de O Burguês Fidalgo, interpretado por Fabrice Luchini. No filme, Jourdain é um homem casado que cobiça uma moçoila de sociedade, mas não sabe como conquistá-la. Contrata uma ”consultoria” ao homem de teatro Molière, supostamente alguém conhecedor dos atalhos que levam ao coração de uma mulher. O objeto de desejo é ninguém menos que Ludivine Sagnier, atriz que também pode ser vista no mais recente filme de Claude Chabrol, Uma Garota Dividida em Dois. Mas, entre ela, o candidato a amante, e o próprio Molière, se interpõe o nobre arruinado vivido por Edouard Baer.

O filme de Tirard assume, assim, o formato de uma comédia romântica de classe, um jogo de equívocos amorosos, que mescla biografia com a imaginação artística do autor. É um filme a que se assiste com muito prazer, seja pela concepção geral da história, seja pela presença de atores muito bons recitando frases inteligentes e bem escritas. Pode não parecer muita coisa, mas dado o grau médio de estupidez do cinema atual, já é o suficiente.

(Caderno 2, 19/7/08)

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