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Miss Sunshine no Lasar Segall

Luiz Zanin Oricchio

21 Janeiro 2007 | 12h29

Ontem fiz um bom programa. Fui assistir A Pequena Miss Sunshine, que não tinha ainda visto, no Cine Segall, que fica no Museu Lasar Segall. É um espaço surpreendente, na Vila Mariana, onde não ia há muitos anos. Você chega lá e parece que está em outra cidade, a São Paulo dos anos 50 ou 60. Uma rua de sobrados geminados, arborizada, tranqüila, embora a um quarteirão da babélica Avenida Jabaquara. O museu fica na casa onde morou o grande artista plástico até sua morte em 1957. Há uma exposição permanente muito interessante de sua obra, contemplando os vários períodos de sua atividade artística. A fase em sua terra natal, Vilna, depois na Alemanha, no Brasil, a volta à Europa, desta vez em Paris, e o retorno final ao Brasil. Como aconteceu com tantos artistas europeus, também Segall se deixou influenciar e seduzir pela imagem do trópico e isso aparece não apenas na temática como no seu traço. Enfim, foi uma tarde muito agradável e instrutiva.

Quanto ao filme de Jonathan Dayton e Valerie Faris, achei muito interessante. A história da família que leva a garotinha para um concurso de misses infantis na Califórnia usa o clássico feitio road movie de maneira interessante. Não é todo dia que você vê uma família norte-americana deslocando-se numa kombi caindo aos pedaços, que precisa ser empurrada para pegar. A família também é “disfuncional” segundo o estereótipo usual: o avô se droga e é desbocado, há um tio homossexual, especialista em Proust, que acaba de tentar o suicídio. O adolescente da casa só se comunica por escrito para não ser obrigado a falar com ninguém. E o pai é professor de um curso para “vencedores”, composto de nove passos fundamentais. E que serão devidamente desconstruídos ao longo dessa viagem pelo país.

Enfim, é a mitologia do sucesso americano que vai pelo ralo nessa comédia que, amena e agradável, não deixa de ser corrosiva. Não achei um “graaaaande” filme, não, como me fizeram crer. Mas é filme de exceção. Estilisticamente neutro, porém com diálogos ótimos e atuações bastante boas. Em especial a de Alan Arkin fazendo o vovô desbocado – e infinitamente humano. Gostei, passei bons momentos e respirei com alívio ao constatar que a veia crítica não está de todo morta nos Estados Unidos. Ainda existe gente capaz de enxergar com distanciamento (e humor) o ideário careta dominante naquele país.

Tudo teria sido perfeito se a projeção e o som do cineminha do museu fossem melhores. O espaço é ótimo. Precisa dar uma garibada no equipamento.