Minha polêmica com Samuel Pessôa em torno de ‘Bacurau’
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Minha polêmica com Samuel Pessôa em torno de ‘Bacurau’

Citado por mim em texto crítico sobre 'Bacurau', o colunista de economia da Folha respondeu e demos início a um diálogo que começa pelo cinema, estende-se a outros temas correlatos e testemunha a possibilidade de pessoas de posições opostas trocarem ideias de maneira civilizada.

Luiz Zanin Oricchio

07 de outubro de 2019 | 12h07

Citei o colunista de economia da Folha neste trecho de um post:

“Ora, só esta semana, Bacurau foi citado na coluna do psicanalista Contardo Caligaris, que o amou, e do colunista econômico Samuel Pessôa, que o odiou. Aliás, Pessôa é crítico contumaz da obra de Kléber. Escreveu também sobre o longa anterior, Aquarius, e criticou a personagem principal, Clara (Sonia Braga), chamando-a de egoísta por se obstinar em manter seu apartamento e não vendê-lo à incorporadora que quer demolir o velho prédio e construir um espigão no terreno. Entrave ao progresso. Agora, (“Em Bacurau, o inferno são os outros”, Folha, 15 de setembro de 2019), ataca Bacurau porque não entende como os habitantes da cidadezinha pagam as contas. Acusa a esquerda de haver rebaixado sua linha de raciocínio ao ser desalojada do poder. Insinua que ela está perplexa com perda de influência das comunidades eclesiais de base para as igrejas evangélicas nas periferias e que os pobres de fato anseiam por uma vida de consumo, daí o sucesso dos evangélicos e da tal “teologia da prosperidade”, que teria sepultado a antiga teologia da libertação (Há uma certa razão nisso, mas que precisaria ser matizada).”

Samuel Pessôa me enviou um texto por e-mail e demos início a uma conversa, reproduzida abaixo:  

Samuel Pessôa

Prezado Luiz Zanin:

Quem me enviou seu contato foi o meu amigo jornalista João Gabriel seu colega de Estadão.

Escrevo-lhe em função de seu texto criticando minha coluna sobre o filme Bacurau.

Não quero incomodar. Não há nada demais nem nada errado em pessoas de bem pensarem diferentemente. É da natureza humana, e ainda bem que inventamos a democracia para convivermos bem com as diferenças.

Escrevo-lhe porque, além das discordâncias, houve de sua parte incompreensão do que escrevi. A incompreensão pode ser devida a um texto ruim. Expressei-me mal. Não seria fato incomum. É comum quando alguém escreve algo, e outra pessoa entende diferente, que o motivo seja a má qualidade do texto. Diferentemente, no entanto, pode ser que, em função de você não gostar de como penso, você ter predisposição negativa ao que escrevo. Pode ser uma combinação das duas coisas.

Acho legal compartilhar com você o que, para mim, foi incompreensão sua de meu texto. Ao menos nos termos que pensei o texto e acho que tenha escrito.

Eu gostei do filme Bacurau. Sempre gosto desse diretor. Pelo menos, até hoje gostei dos três filmes dele que vi. Mesmo porque, se não tivesse gostado, dificilmente conseguiria escrever uma coluna sobre ele. Escrevi isso logo no início de minha coluna:

Gosto sempre dos filmes do diretor Kleber Mendonça Filho. Apreciei Bacurau, filme assinado também por Juliano Dornelles. Recomendo, mas devo dizer que deixei o cinema insatisfeito. Apesar de toda a qualidade do filme, a reflexão da sociedade que o filme propõe é extremamente simplista.

Ou seja, não odiei Bacurau. Foi uma experiência prazerosa.

Também não sou crítico de cinema e, nas três colunas que escrevi sobre filmes, sempre empreguei o filme para falar de algo ligado a economia. Foi assim em “Aquarius”, “Quem matou Daniel Blake” e “Bacurau”. Não tenho a menor condição de criticar um filme. Mas me parece perfeitamente possível que um colunista do caderno de economia use filmes para falar de nossas questões. Acho de fato que, quando isso ocorre, é um sinal que a arte está viva.

Em minha coluna sobre “Bacurau”, afirmo que o filme parte de uma leitura do subdesenvolvimento da América Latina que está errada. Somente isso. É esse sentido que, me parece, autoriza um colunista de economia a abordar o filme.

Comparemos, por exemplo, “Bacurau” com “Bastardos Inglórios”. Nada entendo, mas me parece que em algum sentido a estética de ambos é a mesma. A diferença é que Hitler e o nazismo existiram; 6 milhões de judeus, dezenas de milhões de eslavos e milhões de outros europeus, incluindo alemães, e centenas de milhares de americanos morreram.

Diferentemente, por aqui, não há evidência de que nossa miséria seja fruto do capitalismo internacional, das multinacionais ou de seja lá de quem for. Todo o conhecimento que tenho da historiografia econômica dos últimos 50 anos rejeitou fragorosamente a leitura do subdesenvolvimento da teoria da dependência.

Até onde conheço, e este tema conheço bem, não há evidência de que nossa miséria tenha sido causada por algum agente externo. É possível que outros economistas ou historiadores assim pensem. Gostaria até de ver textos dessas pessoas e o tipo de evidência que arrolam.

Meu ponto foi somente que o filme, para construir sua alegoria, empregou um diagnóstico que, até onde consigo enxergar, é ultrapassado e rejeitado pela academia séria que estuda o tema.

Se você consultar os textos recentes de história econômica sobre a Revolução Industrial na Inglaterra, verá que aquela história cara ao departamento de história da FFLCH da USP – Eric Williams, o comércio triangular e sua importância para a Revolução Industrial – simplesmente não existe.

Estou dizendo somente que o filme se apoia em um diagnóstico sobre nosso subdesenvolvimento absolutamente rejeitado pela academia séria que investiga o tema. Posso estar errado. É possível que haja historiadores econômicos sérios que pensem diferentemente. Desconheço. Somente isto.

Evidentemente, minha coluna encerra uma critica às nossas classes pensantes. Penso, e entendo perfeitamente que você discorde, ser muito ruim elas – à esquerda, mas também à direita – gostarem tanto dessa visão conspiratória de nosso subdesenvolvimento. Boa parcela dos erros de política econômica cometidos entre 2006 e 2014 teve como origem essa leitura equivocada de nossa miséria. Não critiquei o Kleber cineasta, mas o Kleber crítico social que, sim, apresenta um diagnóstico a respeito de nossa miséria em seu filme. Nesse sentido específico, “Bacurau” se distancia de “Bastardos Inglórios”. Para mim, o diagnóstico está errado. Kleber quis falar sobre nossa miséria sem conhecer do assunto.

Passo, agora, a sua interpretação de minha coluna sobre o filme “Aquarius”. Aí, nossa incapacidade de comunicação foi total. Em nenhum momento disse que Clara era egoísta. Escrevi o seguinte sobre Clara:

Clara, 65 anos, jornalista aposentada, viúva, três filhos criados é a personagem central desse filme. Mora em um apartamento no segundo andar de um edifício dos anos 50, defronte ao mar da praia de Boa Viagem, ponto nobre do Recife.

Foi lá que viveu boa parte de sua vida. Criou os filhos, enfrentou um câncer de mama e a viuvez. Vive rodeada de sua biblioteca, farta coleção de discos de vinil, além do piano.

Todos os apartamentos do edifício foram adquiridos por um incorporador imobiliário que pretende erguer uma torre, provavelmente de gosto arquitetônico discutível.

Para Clara, sua memória não tem preço. Morrerá no edifício Aquarius.

Parece-me que essa descrição é empática com Clara. Não me parece que eu faça caricatura dela ou algo assim.

Nunca pensei em escrever algo normativo sobre Clara. Ou seja, em dizer como deveria se comportar. Longe disso. Se você assim entendeu, meu texto foi muito ruim. Normalmente escrevo textos de natureza positiva – tento entender um fenômeno –, não textos de natureza normativa. Não sou um moralista, nem tenho formação para tal.

Minha questão com Clara era entender os motivos de ela poder abrir mão da proposta do incorporador imobiliário. Minha crítica de “Aquarius” é diferente da de Bacurau. Bacurau, para mim, tem uma premissa errada. “Aquarius” não. O que ocorre com “Aquarius” é que Kleber, como ocorre com artistas talentosos, permite que sua obra tenha diferentes interpretações. Nesse sentido, me parece que “Bacurau” é pior que “Aquarius”, que, penso eu, é pior do que “O som ao redor”.

Para mim, em “O som ao redor” chegamos o mais perto possível de uma crítica sofisticada de nossa sociedade. Como vemos em filmes independentes norte-americanos. Meu preferido é “Felicidade” de Todd Solondz.

Minha questão em “Aquarius” é positiva, não normativa. Pergunto: por que Clara é tão forte? Por que motivo ela consegue enfrentar os capitalistas? Minha resposta: distorções do Estado brasileiro permitem que ela seja forte. Respondo com as conclusões de Raymundo Faoro. Entendo que você pode gostar ou não de minha resposta, mas me parece que esta é uma leitura possível do filme. E, penso eu, vem daí a riqueza da obra. Permite diferentes leituras. Kleber fez um filme que permite a uma pessoa com visão de mundo diferente da dele lê-lo em outra chave. Bacurau não permite isso.

A resposta que forneço à pergunta que fiz – de onde vem a força de Clara? – é a seguinte: Clara tem renda suficiente para não precisar vender o apartamento. Consegue manter, na aposentadoria, um nível de vida elevado, apesar de não ter tido carreira profissional espetacular. Argumento que, em países mais justos, quem teve uma carreira profissional como a de Clara não teria as condições na velhice de manter seu padrão de vida e, portanto, acharia melhor aceitar a proposta da construtora.

Assim descrevi, à moda de Faoro, as distorções do Estado brasileiro que empoderaram Clara:

Por que Clara não vende seu apartamento aproveitando as condições favoráveis, podendo constituir reserva adicional para a velhice? Ainda mais, um apartamento de tamanho que já não é mais necessário, afinal os filhos já saíram do ninho.

Em países socialmente mais justos, uma pessoa com o histórico de vida de Clara venderia o apartamento por um bom preço, ou o trocaria por um ou dois na nova torre.

Clara é aposentada, provavelmente no teto do INSS e recebe a pensão do marido, que, imagino eu, é de professor titular da UFPE, ou algo equivalente. Nas regras brasileiras, exclusividade nossa, Clara pode acumular seu próprio benefício com o do marido.

Clara tem, além do imóvel no Aquarius, quatro outros apartamentos. Possivelmente herdou alguns e adquiriu um ou dois. A compra tanto dos herdados quanto dos por ela adquiridos deve ter sido financiada pelo finado Banco Nacional de Habitação (BNH). A hiperinflação brasileira reduziu significativamente o saldo devedor dos apartamentos e, pagou-se pelos imóveis muito menos do que custaram à sociedade. A ausência de correção da dívida foi cortesia de políticos demagogos. A diferença foi para a viúva na forma do Fundo de Compensações de Variações Salariais (FCVS) que até hoje pesa nas contas do Tesouro Nacional.

Evidentemente essa descrição incomoda a todos nós. Por quê? Por que todos nos vemos nela. Ela mostra que o inferno somos nós. Que não somos pobres porque um monte de multinacionais vieram para cá nos espoliar. Somos pobres, pois nós mesmos fizemos escolhas que produziram nossa miséria. Boa parcela dessa escolha está associada ao patrimonialismo. E o patrimonialismo nos afeta a todos. Boa parcela de nós, “de classe média”, vivemos bem e confortavelmente por causa do patrimonialismo.

Você pode discordar da minha leitura do filme. Você pode discordar da minha leitura de que o Estado brasileiro tenha produzido as injustiças às quais eu referi na coluna, apesar de eu sustentar minha análise em fatos objetivos e conhecidos. Mas é difícil afirmar, a partir da minha coluna, que eu tenha afirmado que Clara seja egoísta ou que ela devesse ter aceitado a proposta. Somente afirmei que ela pode não aceitar a proposta, pois uma série de distorções do Estado brasileiro assim permitiram. Escrevi o seguinte:

Assim, um conjunto imenso de distorções explica o poder de barganha de Clara. Ela é capaz de enfrentar os empresários gananciosos e barrar um empreendimento que geraria: aumento de apartamentos em Boa Viagem; renda para os empreendedores; renda para os ex-moradores do Aquarius que esperam o fim do negócio para receber parcela final da venda; e aumento significativo de IPTU para a prefeitura. Sem falar dos empregos e renda durante a construção e vários depois dela.

Evidentemente, o fato dela não aceitar a proposta prejudicou a vida de um monte de gente. E esse fato, o filme faz questão de mostrar.

Termino a coluna sobre “Aquarius” estabelecendo a ligação que vejo entre essas distorções e o baixo crescimento brasileiro. Para mim, trata-se de causa e efeito. Tenho bons motivos para pensar que assim seja. Novamente, é meu ofício. Sou professor de teoria do desenvolvimento econômico. Há, evidentemente, profissionais de economia que pensam diferente, que têm outra interpretação do nosso subdesenvolvimento. Entendo. Minha leitura da evidência empírica e da literatura acadêmica relevante desse campo da economia é que estão errados. É sem dúvida um bom debate. Termino, portanto, assim minha coluna sobre Clara:

Claro que a soma de nossas distorções – que resultam, entre outras, no gasto de 13% do PIB com aposentadoria e pensões, quando pela nossa estrutura demográfica deveríamos gastar 5% – é importante causa do baixo crescimento econômico. O setor público não tem recursos para financiar a construção da infraestrutura física e social do país, incluindo, entre outros tantos setores, o de saneamento básico.

O baixo crescimento econômico, por sua vez, torna o início da vida profissional das novas gerações muito difícil. Clara está sempre disposta a ajudar os filhos. Será que o Honda FIT da filha foi comprado com o dinheiro da mãe?

O filme menciona dificuldades financeiras dos filhos de Clara. Fato corriqueiro para qualquer um “de classe média” que tenha filhos no Brasil. Nosso baixíssimo crescimento desde os anos 80 tem tornado o início da vida profissional muito difícil por aqui.

Empreguei “Aquarius” para fazer uma leitura de nosso subdesenvolvimento a partir do patrimonialismo brasileiro. Como disse, a partir de Faoro. Minha leitura incomoda muito. Incomoda pois, em vez de culpar os banqueiros, os ricos ou os gringos pela nossa miséria, responsabilizo a todos nós, coletivamente.

Super obrigado pela sua atenção. Espero não ter lhe aborrecido com este longo e-mail.

Acabo de publicar, com Marcos Lisboa, um livro com um monte de debates relacionados a esses temas. Talvez você goste. Envie-me seu endereço, para eu lhe enviar um exemplar.

Grande abraço,

Samuel

Luiz Zanin

Caro Samuel, sua mensagem não me aborreceu em nada. Muito pelo contrário. Gosto muito da conversa civilizada entre pessoas que pensam de maneira diferente. Aliás, acho que essa prática é que anda em falta no Brasil atual. 

Além do mais, como digo no texto em que você foi citado, fico muito feliz quando um filme brasileiro ultrapassa o limite da crítica e torna-se objeto de reflexão de pessoas de outras áreas. Isso acontece de maneira muito pontual, com alguns filmes específicos, como foi o caso no passado da obra-prima de Glauber Rocha, Terra em Transe, e mais recentemente, de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. 

A meu ver, isso se dá quando o filme, a obra, por sua relevância, entra na corrente sanguínea do país e motiva intelectuais de várias áreas a opinar sobre ela, de maneira positiva ou negativa, pouco importa. 

Tenho a impressão de que isso acontece quando, por algum tipo de intuição, a obra e seu autor tocam algum ponto nevrálgico no ethos de determinada época. Para ficar nos exemplos anteriores, em Terra em Transe, Glauber fazia um balanço do golpe de 1964, distribuindo responsabilidades entre políticos populistas, militares golpistas, empresários, intelectuais e o próprio povo. Era um jorro intuitivo genial, que punha a nu muito das estruturas profundas do país. 

Já a questão das drogas e da sedução da criminalidade recebeu em Cidade de Deus seu formato mais forte e urgente. Por isso, talvez, o filme fez época, foi muito visto e discutido, provocando polêmicas acirradas no interior da crítica de cinema, mas também fora dela. 

Kléber Mendonça tem sido feliz em acertar-se no compasso do tempo com seus filmes. Está apenas em seu 4º longa-metragem. O Som ao Redor fala, entre outras coisas, da reciclagem do capital agrário em investimento urbano, e da permanência das relações senhoriais em plena urbe. Aquarius é também uma reflexão sobre a especulação urbana no Recife (e em todas as grandes cidades do país). Já Bacurau parte para a ficção científica ao mostrar como um povoado fictício se recusa a morrer e resiste. 

A arte é bastante estranha. Pode partir de uma reflexão racional sobre determinado tema, mas acaba, não raro, por extrapolar seus limites, mesmo à revelia do autor. Em Aquarius, Kleber mostra a luta de Clara (Sonia Braga) para manter a casa, impregnada da sua memória histórica. Bacurau, parceria de Kleber e Juliano Dornelles, é um projeto de vários anos. Quando começou a ser pensando, Bolsonaro era apenas um deputado radical e dono de ideias exóticas. Um tipo folclórico. Jamais alguém de bom senso o imaginaria presidente da república. O filme foi sendo construído ao longo dos anos, incorporou a turbulência política pós-2013 e chega às telas em pleno governo Bolsonaro. Soa como um comentário atualíssimo e talvez o seja de fato. Muita gente – entre a qual eu me incluo – sente o Brasil como um território ocupado, no qual nós somos a caça. Somos, ou nos sentimos, como a população de Bacurau, mas não conseguimos resistir como ela. “Bacurau simboliza o que nos falta”, escrevi em outro texto sobre o filme. 

Bem, ficando nestes dois filmes – Aquarius e Bacurau – é mais ou menos assim que vejo a arte cinematográfica e sua relevância para a compreensão social. Questões estéticas à parte (este seria outro departamento), entendo que determinadas obras vibram, entram em sintonia com determinados momentos históricos e seus desafios. São raras. Por isso mesmo, tão importantes.

Aquarius não é apenas a história de uma senhorinha teimosa, encastelada em seu imóvel. É, antes de tudo, uma reflexão sobre a especulação imobiliária desordenada e no que ela transformou nossas cidades. Bacurau não é apenas a história improvável de um safári humano e de como se pode enfrentá-lo. É pensamento vivo sobre a vida em comunidade e seu direito de autodefesa contra quem tenta destruí-la. Ambos são pensamento, através do cinema, de questões políticas prementes. 

Dito isso, acho que não houve nem má redação das suas colunas e nem mal entendido da minha parte. Pelo contrário. Você escreve de maneira cristalina e – sorte de seus leitores – evita o jargão, o “economês” que contamina boa parte dos seus colegas. Como acho que não tenho grandes problemas cognitivos, só posso atribuir o nosso desentendimento a nossos pressupostos intelectuais bastante diferentes, senão opostos. 

Sem me alongar, discordo de você em muitas coisas, mas com matizes. Também não acho de muita utilidade atribuir nossas mazelas aos outros. Porém, como entendo o mundo como um sistema interdependente, não dá para considerar o Brasil uma autarquia, responsável solitário por seus fracassos ou sucessos. O país está em relação com o mundo. E se formou por um processo histórico, da colônia aos tempos modernos. O extrativismo, que é legado da colonização portuguesa, substituído por dependência várias, da Inglaterra aos Estados Unidos, como todo mundo sabe. 

Longe de mim qualquer antiamericanismo primário – adoro jazz, o grande cinema americano e a literatura do país. Alguns dos meus grandes ídolos, de Muhammad Ali e Ernest Hemingway, são norte-americanos. 

Mas não dá para ignorar a presença econômica dos Estados Unidos no mundo, e esta política é muitas vezes predatória. Apenas para ficar na minha seara, você sabia que o market share dos cinemas brasileiros tem mais de 80% de participação de Hollywood? Ou seja, de 10 ingressos vendidos no Brasil, 8 vão para filmes americanos. Quando lançam algum blockbuster, é comum que ⅔ do circuito seja dedicado a esse único filme. Quando isso acontece, outros filmes que estavam em meio de carreira, podendo ainda fazer muitos espectadores, são expelidos dos cinemas. Enfim, é algo da ordem da ocupação mesmo e atenta contra a biodiversidade artística. 

Presumo que isso aconteça em vários outros setores da economia. Mas você parece afirmar que tudo isso está ultrapassado pela moderna teoria econômica: “Não há evidência de que nossa miséria seja fruto do capitalismo internacional, das multinacionais ou de seja lá quem for”. Ora, ao contrário do que você diz, há toda uma respeitável bibliografia que mostra o contrário – de Maurice Dobs a Eric Hobsbawm, passando pelos historiadores franceses e os nossos brasileiros, como Fernando Novais, Carlos Guilherme Mota, Lilia Schwarcz e Laura de Mello e Souza, filha de Antonio Candido. Até FHC, em seus tempos de acadêmico, criou uma teoria da dependência, que depois pediu que fosse esquecida. Não vejo como ignorar as etapas históricas de formação do Brasil e a dependência de processos coloniais e imperiais na conformação do país atual. Somos, em boa parte, produtos do nosso passado e este se eterniza no presente. 

Daí que entendo ser Bacurau não como você diz um “diagnóstico errado a respeito da nossa miséria”, mas outra coisa bem diversa. Primeiro, porque não o vejo como diagnóstico, mas como alegoria da resistência. Segundo porque, ao contrário do que se pensa à primeira vista, ele também é uma crítica à passividade do povo brasileiro e não uma incitação à violência. Se há um pecado capital do povo brasileiro é o de não ter se oposto com vigor em momentos em que seria do seu interesse fazê-lo. Os exemplos históricos estão aí, à vista de todos, e alguns são bem recentes. 

Acho que já me estendi demais, mas me parece que este é o germe dos filmes de Kleber – personagens que resistem ao cerco de forças mais poderosas do que eles. Clara, em Aquarius, ao enfrentar o capital imobiliário. A comunidade de Bacurau, ao usar as armas antiquadas do seu museu para se defender de um grupo ocupante, apoiado por uma tecnologia de ponta (as armas são vintage mas os drones e os dispositivos de observação são de ponta). 

Temos aí ideias em desenvolvimento, que se “encarnam”, por assim dizer, em personagens. Daí, a meu ver, ser irrelevante especular se Clara acumula sua aposentadoria com a pensão do marido, ou preocupar-se em saber como os habitantes de Bacurau pagam suas contas. São personagens de ficção, a serviço de uma dramaturgia, e não personagens de carne e osso, com RG e CPF. 

Por ora é isso, para não me alongar mais.

Abraço grande. Luiz Zanin

 

Samuel Pessôa 

 

Prezado Zanin:

Que legal sua mensagem. Somente hoje consigo sentar e responder. Semana muito corrida.

Acho que há espaço para mais uma interação. Parece-me produtivo. E certamente seria ótimo que você colocasse toda essa conversa no seu blog.

Gostaria, inicialmente, de comentar a seguinte passagem de sua mensagem:

Porém, como entendo o mundo como um sistema interdependente, não dá para considerar o Brasil uma autarquia, responsável solitário por seus fracassos ou sucessos. O país está em relação com o mundo. E se formou por um processo histórico, da colônia aos tempos modernos. O extrativismo, que é legado da colonização portuguesa, substituído por dependência várias, da Inglaterra aos Estados Unidos, como todo mundo sabe.

Essa afirmação é trivial no sentido de que ela aplica-se a qualquer sociedade em qualquer momento de nossa história. Não existe sociedade autárquica e totalmente independente de todos os vizinhos. Talvez algumas sociedades que vivem no mundo da caça e da coleta se aproximem desse nirvana autônomo.

O ponto é sabermos se nossa posição no mundo ou se nossa dependência produziu limitações reais para nosso desenvolvimento ou tem grande responsabilidade na manutenção de nosso subdesenvolvimento. E ai os autores que você cita pouco ajudam. Tomemos, por exemplo, Fernando Novais. Em seu trabalho ele constrói uma narrativa sobre o papel do Brasil no desenvolvimento da revolução industrial inglesa. Trata-se de narrativa logicamente consistente mas sem nenhum esforço de validação empírica. Uma das previsões da narrativa de Novais é que o processo de acumulação de capital originado no comércio negreiro escorria para a metrópole e desta, por canais nunca bem esclarecidos, para a Inglaterra. Trabalhos dos historiadores marxistas Manolo Florentino e João Fragoso documentam que a maior parte deste capital era acumulado no Brasil e se reproduzia no Brasil. Havia uma transferência de recursos para a metrópole, na forma de impostos, que, provavelmente era empregada em consumo da burocracia de Estado. Ou seja, pelo menos para o período posterior a meados do século XVIII não há evidências de que o processo de acumulação de capital ocorria fora da colônia. Era o contrário.

Depois da independência fica ainda mais difícil de estabelecer algum mecanismo de transferência de renda ou de dependência. Após a década de 30, quando venceram os acordos comerciais que assinamos com a Inglaterra na Independência em condições de baixo poder de barganha, passamos a ter controle total sobre a nossa política de comércio exterior. As alíquotas de importação eram elevadas. A evidência sistemática é que a partir da segunda metade do século XIX as alíquotas de importação da América Latina não eram inferiores às americanas e eram das mais elevadas no mundo.

Trabalho recente do historiador econômico William Summerhill documenta que o Brasil pagava juros relativamente baixos em sua dívida soberana. Tínhamos o mesmo grau de risco dos títulos americanos e italianos e nosso spread frente aos títulos soberanos ingleses era da ordem de 1%. De fato o baixo risco percebido pelo mercado internacional era fruto de ao longo do império o Brasil ter sido sempre um bom pagador. Não demos calote em nossa dívida soberana e éramos, portanto, percebidos como país com baixo risco.

O mesmo Summerhill em um trabalho belíssimo sobre o desenvolvimento das ferrovias brasileiras entre 1854 e 1913 mostrou que o retorno social das ferrovias foi sempre maior do que o retorno privado e que elas contribuíram muito para nosso desenvolvimento. O trabalho tem interesse pois o mesmo trabalho para os EUA – feito por Robert Fogel que acabou por lhe garantir o prêmio Nobel de economia – chegou em resultado diverso. Surpreendentemente as ferrovias não foram muito importantes para o desenvolvimento norte americano. O motivo é que a economia americana já tinha uma rede de transportes – formada por rios e lagos navegáveis, costa e uma topografia que tornava a carroça (ou a diligência) razoável meio de transporte – que era bastante eficiente. As ferrovias adicionaram mas não muito. No Brasil em que as ferrovias substituíram tropa de muares o ganho foi substancial.

Ou seja, simplesmente não é possível encontrar nenhum mecanismo sistemático de transferência de riqueza que a Inglaterra teria produzido que explicaria nossa miséria no século XIX. Ela é fruto de uma elite tacanha que dificultou o acesso à terra, manteve a escravidão, não investiu em educação e, adicionalmente, é fruto da pobreza de nossos recursos. Não tínhamos carvão e petróleo, nossa topografia muito desfavorável encarecia muito os transportes e dificultava a integração dos mercados, além de até os anos 60 do século passado não termos desenvolvido tecnologia para agricultura de clima tropical, entre tantos outros motivos. O mundo nada tem a ver com esta história.

Outra possível fonte de exploração poderia ser as empresas estrangeiras de serviços de utilidade pública. O caso paradigmático é o da empresa Light que nos anos 30 era responsável pela geração e distribuição de energia elétrica, transportes urbanos (serviços de bondes) e telefonia, em São Paulo e no Rio. Dissertação de mestrado do meu aluno Marcelo Jourdan calculou para os 81 anos que a empresa por aqui se instalou – entre 1898 até 1978 – a partir de todos os balanços da matriz a taxa interna de retorno do capital investido. Não há nenhuma evidência de ganho extraordinário ou qualquer coisa assim. A empresa teve um retorno razoável da criação até o início dos anos 30 quando, em função do controle tarifário que foi introduzido no Estado Novo, seu retorno caiu muito. Aos poucos a empresa foi abandonado o país. Primeiro o serviço de bondes – a primeira medida que o poder público tomou quando a licença do serviço voltou a ele foi dobrar o valor real da passagem que estava congelado desde os anos 10. O serviço de bondes voltou ao poder público pois a Light uns dez ou cinco anos antes do fim da licença avisou o governo que não tinha interesse em renovar a concessão. O motivo era o efeito do controle tarifário sobre a rentabilidade do negócio.

Hoje sabemos que os mercados de capitais funcionaram relativamente bem na República Velha e que foram fonte regular de financiamento de longo prazo no período. A evidência história indica que foi principalmente a alteração na orientação das políticas públicas com a centralização da geração de poupança no Estado e partir dos anos 30 que gerou as desfuncionalidades desses mercados. A partir dos anos 40 a aceleração inflacionária cada vez mais impedia que mercados funcionassem e, portanto, cada vez mais dependíamos da intervenção direta do estado. História conhecida que somente saímos com o plano real e que, parece, somente agora, com a emenda que estabelece um teto para a taxa de crescimento do gasto público, conseguimos caminhar para um equilíbrio com juros civilizados, não ainda conquistados. Todas estas dinâmicas de nossa inteira responsabilidade.

Além de todas as nossas ineficiências no século XX erramos fragorosamente na educação pública de qualidade. Nunca tivemos. Aquela boa escola pública dos anos 50 atendia e menos de 10% da população. Entre 1930 e 1980 o gasto público com educação fundamental não superou 2,5% do PIB sendo que nos anos 50 era de 1,0%. Hoje gastamos 6% e a turma da educação acha pouco. Nossas elites intelectuais – inclusive as de esquerda (Celso Furtado é o exemplo paradigmático aqui) – nunca perceberam a ligação entre educação e desenvolvimento econômico ou entre educação e desigualdade. Um dos poucos pensadores que desde sempre gritou que nosso atraso educacional era uma das causas de nossa miséria foi Eugênio Gudin. Sempre foi tratado com liberal entreguista.

Como mencionei nos atrasamos muito em pesquisas que enfrentassem nosso desconhecimento de agricultura de clima tropical o que muito dificultou o desenvolvimento do agronegócio entre nós.

Ou seja, aquelas intuições de Fernando Novais ou Hobsbawm são intuições. Elas não sobreviveram ao teste empírico. A evidência as rejeita. Sei que reconhecer este fato é doloroso. É toda uma visão de mundo bastante confortável que criamos por aqui – visão de mundo cara aos artistas, intelectuais, especialmente de esquerda, mas também cara aos militares e setores expressivos da direita. A visão conspiratória nos conforta.

Um exemplo de visão preconcebida sem amparo na evidência de que há (ou houve) mecanismo de exploração exercido pelas empresas multinacionais encontramos em uma entrevista de Lula, para o jornal ‘O Globo’ em 2006, antes do segundo turno. Com referência às tratativas da Petrobras com a Bolívia, comentou:

Eu não quero que a Petrobras se comporte como as empresas multinacionais dos anos 50. Quero que a Petrobras se comporte como as empresas multinacionais se comportam hoje: cobre o preço justo e tenha o lucro justo.

Baseado em que estudo Lula acredita que as multinacionais dos anos 50 cobravam excessivamente? Não há esse estudo. Há somente a nossa visão preconcebida.

Senti essa atitude na sua afirmação de que você se sente caça. Não consigo entender. Quem o caça? Nós estamos entre os 1% mais ricos da sociedade. Se você ou eu ou seus ou meus amigos somos alguma coisa nós somos caçadores e não a caça. Qual o risco que você ou eu corremos? Olhe as taxas de homicídio nos bairros que vivemos. São muito baixas. É fato que as taxas de roubo são superiores às observadas no primeiro mundo mas certamente não chegam perto – tanto para roubo quanto para homicídio – das observadas nas periferias. Ou seja, se for para nós enxergarmos o mundo por meio desta chave – caça e caçador – você, eu e a nossa classe social somos os caçadores. Certamente o promotor de justiça de Minas Gerais cuja gravação veio a público há umas semanas, reclamando do salário de R$ 24 mil sem os penduricalhos, é um dos caçadores. Estamos no 1% mais rico.

Por exemplo, se nós avançarmos na agenda de aumentar a progressividade dos impostos no Brasil certamente o imposto pago por todo a nossa classe social aumentará muito. Todos os jornalistas e profissionais em geral que têm a sua empresa que opera no regime tributário do simples ou do lucro presumido, meu caso por exemplo, paga pouco imposto.

Com relação à especulação imobiliária acho que temos dois temas aqui. Primeiro, o mau gasto de inúmeros empreendimentos. Não sei o motivo. Mas andando pelas cidades americanas ou mesmo em Bogotá, por exemplo, não se vê com a frequência que por aqui vemos verdadeiros elogios ao mau gosto. Estranho principalmente sabendo que a regulação por aqui é sempre tão estrita. Regulação estrita sem contudo ser capaz de evitar os desastres estéticos.

O outro tema é se há exageros nos tamanhos ou na densidade populacional em nossas cidades. A famigerada “mais valia imobiliária” dos arquitetos de esquerda. Aí me parece que os números mostram que nosso problema é o inverso. Cidades como Paris ou Barcelona são muito mais densas do que as nossas. O que é ótimo. Há ganhos de escala nos transportes públicos, aproxima as pessoas do local de trabalho e produz bairros híbridos – residencial e comercial – que torna a vida local mais rica, dispensa o carro e ajuda na segurança.

No Brasil uma estranha associação entre ideologia de esquerda – todos desejando uma nova Brasília sem notar, por exemplo, que se São Paulo tivesse a densidade populacional de Brasília o resto de mata atlântica que temos seria destruídos, como nos lembra Raul Justes Lores –, com a inflação e o fim da segurança jurídica do instrumento da hipoteca – também em função de uma ideologia de esquerda que defende excessivamente o devedor até eliminar o instrumento de financiamento imobiliário – acabou por produzir nossa cidades. Muito pouco densas, excessivamente dependentes do transporte individual, com bairros residenciais – para casas ou edifícios – que se tornam verdadeiros túmulos noturnos em função de excessos de recuos e espaços vazios, além da inexistência do comércio, etc. Parece que o problema aqui não foi a ganância dos empresários.

Grande abraço e super obrigado pela oportunidade da conversa,

Samuel

 

Luiz Zanin 

Caro Samuel. Primeiro agradeço pela resposta complexa e atenciosa às minhas argumentações anteriores. Não posso, porém, deixar de notar que você levou o jogo completamente para o seu campo. Começamos pelo cinema e terminamos na economia. 

No entanto, mesmo aí, em seara alheia, gostaria de fazer algumas observações, ainda que sem contar com o aparato empírico evocado porque números e  fatos nem sempre falam por si – precisam ser interpretados. 

Não tenho como contraditar, nas supostas bases empíricas, afirmações sobre a acumulação de capital e presença de multinacionais em países periféricos. Mas, para dizer a verdade, não consigo ser persuadido de que metrópoles agiam com a benemerência alegada em relação às colônias. 

Os fatos históricos mostram o contrário. Para ficarmos no Brasil, a reação de Portugal ao movimento contra a Derrama foi severa e exemplar. Era uma questão de impostos, que terminou com um enforcado e vários degredados. Essa relação de exploração com a colônia deveria interessar muito à metrópole para que tenha sido reprimida dessa forma. 

Apesar de não trazer dados empíricos, gostaria de recomendar a você um filme que trata desse assunto, Queimada, do diretor italiano Gillo Pontecorvo, com Marlon Brando no papel de agente imperialista inglês na imaginária ilha que dá nome à obra. Estão lá esboçadas as relações ambíguas que ligam colonos e colonizados, mas também comparece explícita a ordem de interesses econômicos que preside essas relações. Inclusive na associação do agente colonial com naturais da colônia, mais ou menos o que acontece em Bacurau com o casal de brasileiros ligado ao grupo do safári humano. São relações dialéticas, no sentido em que, estabelecidas para um determinado fim, produzem o seu contrário. No caso de Bacurau, os “colaboracionistas” sulistas esforçam-se para identificar-se aos estrangeiros e acabam assassinados por estes. 

A relação difusa e ambivalente entre colonizados e colonizadores foi muito estudada pelo médico martinicano Frantz Fanon, inclusive em sua relação com o racismo em se tratando de povos negros. A ler, por exemplo, Os Condenados da Terra, um clássico sobre o tema. Não é coisa exclusiva dos anos 1960. Hoje em dia, nas ciências humanas, os chamados Estudos pós-Coloniais encontram-se na crista da onda universitária e nada têm de antiquados. Com o fim do período colonialista, as relações de exploração entre países de poderio diferente mudou de face. Mas a base continuou a ser o interesse econômico e os meios, mais ou menos sutis, para maximizar a lucratividade dessa relação assimétrica. Os Estudos pós-coloniais mostram os efeitos perversos do processo colonial sobre as pessoas, mesmo depois de passado seu apogeu histórico.  

Dito isso, não duvido que investimentos estrangeiros possam trazer benefícios ao país, diretos ou indiretos. Geram empregos, impostos, etc. Não vêm por benemerência, mas por expectativa de lucro, por exemplo para se aproveitar de mão de obra mais barata que nas “matrizes” – embora falar em matriz já soe até antiquado nesta etapa do capitalismo transnacional. Quando não se cumpre essa expectativa, ele se desinteressa e migra, como aconteceu com a Light, como você lembra. Vai e vem, ao sabor do seu interesse. Seria, nesse sentido, interessante pensar o que acontece com o capital especulativo que, este sim, em frações de segundos e bits, migra de uma aplicação para outra, promove ataque a moedas e é chamado, como se fosse um deus, de O Mercado. Tento entender com boa vontade a cabeça de economistas liberais mas, francamente, me escapa a compreensão do dogma da desregulação diante de catástrofes como a crise de 2008, cujos efeitos sofremos até hoje. Parece um dogmatismo elevado à categoria de fanatismo religioso. 

São dúvidas de um leigo. Mas a observação empírica, mais uma vez, me leva à convicção de que o principal problema do Brasil é a sua desigualdade de renda, a profunda injustiça social que foi minorada um pouco durante os governos de centro-esquerda, mas parece ter voltado triunfante. Volta e meia saem notícias dando os números dessa desigualdade. Ontem mesmo, na Folha, há a manchete econômica: “IBGE: 2,7% das famílias concentram 20% de toda a renda brasileira”. Disso você sabe muito melhor do que eu, como a nossa posição no índice de Gini (99º lugar). Como imaginar que essa desigualdade possa ser diminuída apenas pela aplicação do tripé macroeconômico, que pode deixar a economia sadia mas nada avança em termos de redistribuição de renda. Como imaginar que isso possa ser feito sem intervenção de políticas de Estado. Isto é, de vontade e condições políticas para diminuir a injustiça social e, dito com todas as letras, combater a miséria? 

Essa preocupação com a desigualdade não é privilégio de brasileiros de esquerda. Haja vista o sucesso dos trabalhos de Thomas Piketty, que acaba de lançar novo livro tratando da necessidade premente de uma redistribuição de renda, se não quisermos levar o planeta à breca. Não o li, mas parece que o estudo tem sólida pesquisa e base empírica, como você exige. 

Nesse sentido, dois dos dogmas do liberalismo, o da “igualdade de oportunidades” e do “empreendedorismo” não resistem à observação – empírica – de que não existe qualquer igualdade entre os competidores na largada deste jogo desleal. 

A questão, portanto, está na desigualdade econômica e na injustiça social que ela gera. De qualquer forma, a constatação histórica é que redistribuições de renda radicais não se fazem de maneira amena, pelo simples fato de que os privilegiados resistem, até onde podem, ceder os anéis para salvar os dedos. É preciso que haja condições históricas e políticas para fazê-lo. Hoje, essas condições estão muito limitadas para as lutas igualitárias. 

Se você me permite, cito um trecho de texto de Hobsbawm, escrito em 1990, ainda sob os efeitos da Queda do Muro de Berlim. Chama-se “Adeus a tudo aquilo”. Me parece muito esclarecedor: 

“O principal efeito de 1989 (Queda do Muro de Berlim, dissolução do campo socialista europeu) é que o capitalismo e os ricos deixaram, por enquanto, de ter medo. Tudo o que fez com que a democracia ocidental valesse a pena para seus povos – previdência social, o estado de bem-estar social, uma renda alta e crescente para os trabalhadores e , consequentemente, a diminuição da desigualdade social e de oportunidades – tudo isso nasceu do medo. Medo dos pobres e ao maior e melhor organizado bloco de cidadãos dos estados industrializados, os trabalhadores. Medo a uma alternativa que existia realmente e que podia realmente se espalhar, especialmente na forma do comunismo soviético. (…)Hoje esse medo desapareceu. Por que deveriam os ricos, que se rejubilam na injustiça e na desigualdade, preocupar-se com alguém além deles mesmos?”

E aí passamos para a segunda parte da história. Claro, não sou ingênuo de atribuir a culpa exclusiva dos malvados estrangeiros pelo nosso atraso, embora reconheça a parte que lhes cabe neste latifúndio, como dizia João Cabral de Melo Neto. A outra parte, talvez ainda mais significativa, é mesmo a da nossa “elite”, atrasada, autocentrada e predatória. A nossa classe dominante, em seu todo, reage com violência à menor expectativa de perda de controle sobre o país. No limite, promove golpes de Estado, como aconteceu em 1964 com um golpe clássico, e, em 2016, com um golpe parlamentar mais sofisticado porque, em aparência, amparado na lei. 

No Brasil não se tolera a ascensão das classes populares, uma herança escravocrata que está na origem do nosso autoritarismo mais arraigado. A classe média, facilmente manipulável por sua insegurança e ressentimento, presta apoio a essas intervenções políticas. Em 1964 era o medo, habilmente disseminado, do “comunismo ateu” (Pobre João Goulart, um estancieiro reformista…). Em 2014-2016, foi o desconforto de se sentir desassistida pelo governo e ver o progresso ostensivo das classes populares, que começaram a aparecer nos aeroportos e mandavam seus filhos às universidades. As empregadas domésticas passaram a ter carteira assinada e exigiram melhores salários. Mudaram para outros empregos e deixaram as donas de casa com o aspirador de pó nas mãos. O filme emblemático desse processo é o excelente Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. Veja, se não o viu, e observe como a diminuição da desigualdade, ainda que mínima, gera uma tensão desproporcional nas camadas privilegiadas da sociedade brasileira. 

De tudo isso, me parece, decorre a dificuldade de mudanças no país. E a sensação de eterno regresso a uma situação anterior, embora saibamos que a História não se repete, a não se como farsa, como dizia, se não me engano no 18 Brumário, aquele filósofo barbudo de quem você provavelmente não gosta.

Para finalizar, acrescento que você toma de maneira muito literal a afirmação de que, como muita gente, me sinto como “caça” no país onde moro. Embora filho de funcionário público, tive acesso a uma educação de primeira, do primário à pós-graduação, e sempre no ensino público. Tive essa sorte e não me queixo da vida. O que não me impede de sentir solidariedade pelos que nada ou pouco têm e que são a imensa maioria deste país. O processo chama-se “empatia”. Sentir pelo outro. 

Além disso, todos nós, seres pensantes, que acreditamos no estado laico, na democracia, na educação, na ciência, na liberdade de pensamento, na igualdade de direitos entre as pessoas qualquer que seja sua raça, gênero ou opção política – todos nós, repito, somos caça deste governo eleito em 2018. Mesmo aqueles que, inadvertidamente, por ignorância, ressentimento ou ódio, nele votaram. 

Aqui estamos e, para voltar a Bacurau, entendo que sua força é simbolizar, de maneira muito sintética, todas essas questões que estamos discutindo nesses nossos textos. Assume em forma dramática esse encontro de forças – estrangeiros , nativos colaboracionistas, políticos corruptos – em face de uma comunidade que precisa sobreviver e tem de fazer alianças para armar a resistência. 

Esse êxito, no plano dramático, tem provocado reações eufóricas no cinema, o que atesta sua eficácia simbólica, para usar a expressão de Lévi-Strauss. Tem também provocado a ira e o desdém de liberais, que ficam arrepiados com a violência de algumas cenas e entendem que a hora não é de enfrentamento mas de buscar uma saída para a polarização social. 

Esses liberais, que se consideram civilizados por admitirem que a sociedade brasileira não pode ficar do jeito que está, odeiam, no entanto, soluções muito rápidas ou radicais. Em geral, nutrem simpatia nostálgica pelo PSDB, no tempo em que o partido ainda era social-democrata, de centro-esquerda, à europeia. Me lembram um personagem de André Gide (talvez em Os Moedeiros Falsos): “Apóio a revolução, desde que não pisem no meu jardim”.  

Em certas circunstâncias históricas, mesmo guardando o gosto pelos matizes, é preciso saber de que lado se está. Eu estou do lado da comunidade de Bacurau.  

É isso, meu caro. Foi um prazer dialogar com você. Grande abraço. Luiz Zanin

Samuel Pessôa

Luiz:
Ótimo.
Um comentário somente. Você escreveu: “Mas, para dizer a verdade, não consigo ser persuadido de que metrópoles agiam com a benemerência alegada em relação às colônias.” Fica parecendo que eu escrevi isto, que as metrópoles agiam em benemerência. Nunca escrevi este fato. Como nunca escrevi que Clara era egoísta. Novamente apareceu ai uma certa dificuldade de você interpretar minhas palavras. Escrevi algo objetivo: a evidência empírica que eu conheço – e estou super aberto a olhar uma evidência contrária se houver – é que o Brasil não foi explorado por potências estrangeiras ou multinacionais. Dai a acreditar que as metrópoles ” agiam com a benemerência” há uma enorme distância.
Com relação à desigualdade trata-se de um problema grave e real. Em novembro de 2015 escrevi a coluna Ponto de Vista da revista Conjuntura Econômica, anexa no e-mail. Você verá que não tenho problemas com políticas para reduzir a desigualdade. Minhas críticas aos governos petistas nunca foram nessa dimensão.
O livro de Piketty é sério e escrito a partir de um trabalho empírico muito cuidadoso. Escrevi uma resenha que saiu na ilustríssima da Folha à época. Tem muitos méritos mas muitas limitações também. Segue o link: https://www1.folha.uol.com.br/paywall/signup.shtml?https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2014/06/1466263-erros-e-acertos-do-fenomeno-o-capital-no-seculo-21.shtml
Seria super legal que você colocasse tudo no seu blog.
Abraço, Samuel

 

Luiz Zanin

Vou incluir, sem problemas. O digital nos permite isso. O uso do termo
“benemerência” não está no seu texto, mas na minha interpretação,
decorre do que você escreveu. Sou eu que eu tenho dificuldade em
entender o que você escreve ou você é quem não mede as implicações
daquilo que escreve? Mas seria levar essa discussão ao infinito.
Abraços de novo. Luiz Zanin

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