Minha Fama de Mau e a questão das cinebiografias
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Minha Fama de Mau e a questão das cinebiografias

Desafio é não apenas traçar personagens verossímeis mas encontrar o clima do tempo em que eles fizeram suas carreiras artísticas

Luiz Zanin Oricchio

18 de fevereiro de 2019 | 11h03

Gostei da cinebiografia de Erasmo Carlos, Minha Fama de Mau, dirigida por Lui Farias. Porém, posso entender quem se queixa de alguns pontos, como a pouca semelhança dos atores e atrizes com aqueles que interpretam no filme – Erasmo Carlos (Chay Suede), Roberto Carlos (Gabriel Leone) e Wanderléa (Malu Rodrigues), em especial.

Mais ainda porque, ao invés de dublar as canções, são os próprios atores que as interpretam, cantam e tocam – o que faz com que as músicas pareçam talvez estranhas aos ouvidos dos que foram e são fãs dos astros da Jovem Guarda.

Entendo, mas preciso reconhecer que nada disso me incomoda. Pelo contrário, acho que confere uma autenticidade ficcional à obra, que não teria caso se tentasse (inutilmente) mimetizar os personagens até o limite do possível.

Para mim, o filme bateu exatamente como aquilo que se propõe a ser: uma ficção baseada em fatos e personagens reais.

Lanço aqui essa fórmula, consciente de todos os problemas que acarreta a quem se dispõe a enfrentar esse gênero. Dito em poucas palavras: o confronto da ficção com a verdade.

E aqui a coisa se aprofunda e se complica: o que é a verdade de uma vida? – e aí está uma obra-prima como Cidadão Kane para dizer que uma vida é algo de virtualmente inesgotável. Uma espécie de cebola, de que vamos tirando uma camada após outra, para descobrir que há outras mais e sempre outras e assim, talvez, até o infinito. Ninguém “esgota” a vida de um homem. Muito menos ele mesmo quando escreve uma autobiografia.

E se é assim nos livros, o que dizer do cinema, arte obrigada a contornar alguns problemas adicionais? A saber, mesmo tratando com liberdade a questão da semelhança física dos atores e dos personagens reais, precisa manter certa verossimilhança, pois o cinema é, entre outras coisas, uma arte da imagem. Esta é sua força e sua fraqueza.  

Depois, se quiser ser fiel ao seu projeto, o autor não pode deixar de fora a reconstituição da época (ou épocas) em que vivem os personagens. Por displicentes que sejamos em termos de História, não dá para ignorar que o personagem é mais bem compreendido diante das características do período em que se passaram os anos fundamentais de sua carreira. Não quer dizer que o personagem seja “reflexo” do seu tempo, mas que não pode ser entendido fora dele. Ninguém é uma mônada, um ser isolado e sem contato com os demais e com as possibilidades e os limites do seu tempo.

Concedido este ponto, entendem-se as dificuldades de reconstituição de um tempo passado. Para começo de conversa, é caro. Exige roupas, carros, apetrechos, penteados que saíram de moda e precisam ser recriados. Isso para não falar das cidades, ruas e ambientes que viraram poeira do tempo e não existem mais sob a mesma forma.

Mas esta não é a maior dificuldade dos filmes de época, a meu ver. O desafio, quando se fala na tela de um tempo passado, é reviver o “espírito” daquele determinado tempo, o tipo de ambiente em que se vivia, a disposição das gentes, o “clima” geral da sociedade – elementos nos quais o personagem encontra sentido. Ou perde, quando essa recriação não é alcançada.

Por fim, há a questão dos personagens reais, vivos e famosos, como é o caso em Minha Fama de Mau. Em especial de um deles, Roberto Carlos, que, como sabemos, é especialmente cioso de sua imagem. Posso imaginar o grau de estresse e negociação que esteve por trás da produção deste filme.

Enfim, essas considerações valem e devem ser aprofundadas em relação a outras cinebiografias, em especial aquela que está em evidência atualmente, a de Carlos Marighella, dirigida por Wagner Moura e apresentada há pouco no Festival de Berlim.  

No que diz respeito a Minha Fama de Mau, me pareceram acertadas as decisões do diretor em tratar os personagens com liberdade. Não precisam se parecer aos astros reais como gotas d’água, mas devem incorporar um certo espírito da coisa, que era aquela juvenília despreocupada, que se insinuava nos anos de chumbo da ditadura e também no nascimento da cultura pop no país.

Para meu gosto, haveria maior contextualização. Claro, há alguma referência das polêmicas musicais com a turma da MPB, Elis Regina em especial, mas o fundo político desses entreveros pouco aparece. Basta lembrar que a MPB evolui da Bossa Nova para uma modalidade mais engajada na luta (simbólica) contra a ditadura, enquanto a Jovem Guarda parecia uma reserva cativa de alienação, com suas canções falando de carrões e namoradinhas numa época em que o país pegava fogo.

Mas, enfim, tudo isso ainda é discutível e, embora faça parte da História, também está aí para ser reinterpretado e rediscutido, ainda mais numa época regressiva como a nossa.

Por outro lado, alguns procedimentos como a quebra da quarta parede (o ator Chay Suede falando para a câmera) e o uso de recursos de animação em certos pontos da narrativa, emprestam vivacidade ao filme.

E, mais do que isso, reforçam a impressão geral de não se trata, no projeto, de reconstruir vidas e um tempo como exatamente foram, mas apresentar uma “construção”, uma hipótese de como podem ter sido.

Dito tudo isso, assistir ao filme me pareceu uma experiência agradável. Mesmo neste caso particular de alguém que pouco seguiu a carreira dos astros retratados e não é ouvinte habitual da música que fazem.

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