Meu Pé de Laranja Lima
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Meu Pé de Laranja Lima

Luiz Zanin Oricchio

19 de abril de 2013 | 17h53

No final dos anos 1960, não houve quem não lesse – e não chorasse com – o romance de José Mauro de Vasconcellos, Meu Pé de Laranja Lima. As recordações de infância do garoto endiabrado Zezé, e seu relacionamento com o humanista Portuga, eram de fato de cortar do coração mais empedernido.
Depois, o texto virou filme (direção de Aurélio Teixeira), novela e tornou-se ainda mais popular, como se isso fosse possível. Enfim, marcou uma época, talvez mais ingênua, do País.

Volta hoje com uma roupagem um tantinho mais moderna, mas não muito, sob a direção discreta e inspirada de Marcos Berstein (o mesmo do sensível O Outro Lado da Rua, que ousa tocar num ponto tabu num país que se julga sexualmente liberado – a sexualidade da chamada terceira idade).
Sempre que um texto de sucesso relativamente antigo volta, somos tentados a nos perguntar: ele ainda tem o que nos dizer?

Bem, é verdade que a situação retratada parece um tanto nostálgica, para dizer a palavra. Cidadezinha do interior, trens de ferro, infância pobre e ao ar livre, etc. Mas é bem possível que tudo isso ainda diga alguma coisa a algum Zezé escondido no fundo da gente.

Zezé (João Guilherme de Ávila) é apenas um garotinho muito cheio de energia e de imaginação. “Levado”, como se diz, e vivendo uma situação familiar não muito favorável – pai desempregado e chegado à bebida; mãe doente e cheia de filhos para cuidar, etc. Natural, portanto, que descubra num ser vegetal, o tal do pé de laranja lima, o confidente imaginário de que precisa para viver. Por sorte, um português, Manuel Valadares (José de Abre), toma-se de carinho pelo menino e nasce entre eles uma grande amizade. Zezé dispõe, portanto, de um amigo imaginário e um real – mais do que muita gente pode sonhar.

Quanto ao tom do filme: Marcos Berstein sabe que o que era emotivo no final dos anos 60, pode soar brega no ambiente meio cínico dos anos 2010. Por isso, coloca uma dose boa de humor sutil nas entrelinhas da história. Beneficia-se, com isso, da interpretação divertida de José de Abreu, muito bem como o Portuga. O menino também é irreverente, o que dá ao filme um tom alegre, apesar de versar sobre as perdas da infância.

Por fim, um twist memorialístico, ao fazer o escritor vivido por Caco Ciocler recordar da infância que por fim transforma no livro que o fará famoso. O próprio José Mauro de Vasconcelos dizia que Meu Pé de Laranja Lima era sua própria experiência de infância pobre retrabalhada pela literatura.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: