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Meu País

Luiz Zanin Oricchio

07 de outubro de 2011 | 17h09

É fácil escrever a sinopse de Meu País. Após a morte do pai (Paulo José), Marcos (Rodrigo Santoro), que mora na Itália, volta ao Brasil, reencontra-se com o irmão estroina (Cauã Reymond) e descobre que tem uma meia-irmã portadora de deficiência intelectual (Débora Falabella).

Não se podem ignorar os méritos do filme. Sóbrio, com um conjunto de atores que funciona em sintonia, apresenta algumas sequências tocantes e um solo, breve, porém marcante, de Paulo José no papel do pai moribundo.

É, obviamente, um filme que parte da ideia da reconciliação. Há uma família partida, dois irmãos de temperamentos opostos, uma irmã problemática, e até então ignorada, fruto de uma aventura extraconjugal do patriarca. O registro, portanto, será o do sentimento, chave na qual brilhou, por exemplo, um cineasta como Valerio Zurlini.

O problema do cinema de sentimentos é a necessidade de criar uma atmosfera na qual as emoções dos personagens possam viajar entre eles e entre a tela e a plateia. É algo muito difícil de conseguir, ainda mais quando, como neste caso, não se procura apelar para a emotividade fácil, para chavões do sentimentalismo. E isso é um elogio.

Mas ainda difícil fica quando o registro visual traz uma certa frieza para a forma do filme, afastando o que deveria aproximar e desligando uma possível empatia do espectador com o tema.

Porém, o problema mais grave está na opção de trazer Marcos para um país esterilizado que dificilmente se reconhece como o Brasil. A clínica onde Manuela (Débora) está internada poderia ficar em algum ponto nos Alpes. A casa da família é também uma mansão isolada, na qual não se veem sequer os empregados. Ora, sabe-se que isolamento é o mais dileto dos anseios da elite brasileira. Casas sem vizinhos incômodos, praias exclusivas, shoppings livres de “gente diferenciada” – eis aí um desenho de utopia para a ponta da pirâmide econômica patrícia.

Acontece que num país como o Brasil isolar-se é muito difícil, quando não impossível, dada a onipresença das contradições sociais. Ao lado da Daslu há uma favela, e é preciso realmente um senhor exercício de câmera e decupagem para conseguir a segregação completa com a qual a elite sonha há cinco séculos.

Questionado sobre esse ponto, o diretor André Ristum diz que é uma opção. Fala muito mais do “país interno” do personagem Marcos do que propriamente do país real chamado Brasil, para onde ele volta para reencontrar a família e talvez reconciliar-se com algo do passado.

É uma tese, mas que, com todo o respeito, não se sustenta. Não se vê a necessidade de abstrair por completo a paisagem externa para fixar-se nas turbulências de alma dos personagens. Pelo contrário, como eles moram com seus sentimentos, mas habitam o mundo real, sua representação só lucraria ao explicitar essa fricção.

O real não precisa ser uma interferência indesejada pelo cinema, uma poluição a ser evitada. Pelo contrário, o filme lucraria com essa contaminação.

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