Meu amigo Mauro Dias
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Meu amigo Mauro Dias

Luiz Zanin Oricchio

01 de fevereiro de 2016 | 17h29

mauro

Ia esperar a poeira baixar um pouco para escrever sobre a morte do nosso amigo Mauro Dias. Mas acho que tenho de lembrar logo algumas coisas sobre ele. Mauro nos deixou ontem, aos 66 anos, depois de 11 meses lutando contra um câncer incurável. Luta mesmo, dura, renhida, como pude testemunhar, e que ele travou junto com sua esposa, Cris Vecchio, uma guerreira. Mas o Mauro se foi e deixa um vazio muito grande na gente.

Conheci o Mauro, muito anos atrás, no Rio, quando “trombamos” numa pauta. Isso não é raro acontecer. Um repórter é designado pela sede, outro pela sucursal, e, juntos, descobrem que foram escalados para o mesmo trabalho. No caso, se bem me lembro, era a posse de Ferreira Gullar na Funarte. Não nos conhecíamos e logo nos entrosamos. O que poderia ser motivo de atrito, virou risada e gozação. Fomos tomar um chope, acho que no Amarelinho. Viramos amigos, de cara. Lembramos que, antes daquilo, havíamos dividido uma página do Caderno 2 por ocasião da morte do cineasta Mário Peixoto, autor do mitológico filme Limite. O Mauro, do Rio, fez o factual, e eu, em São Paulo, escrevi um texto sobre o cineasta – que havia entrevistado no ano anterior em seu apartamento em Copacabana.

De modo que foi uma alegria muito grande quando soube que o Mauro Dias viria trabalhar em São Paulo, como repórter, crítico musical e cronista. Morando na mesma cidade, tornamo-nos amigos inseparáveis. Almoçávamos sempre juntos, bebíamos cafezinho o dia inteiro e fumávamos (como faziam os jornalistas de antigamente). Havia muita coisa a nos aproximar. Primeiro, a música, em especial a brasileira, que o Mauro dominava como poucos. Depois, a literatura e o próprio cinema, que era a minha área. Mauro era um cara culto, nada bitolado em sua área de atuação e um papo agradabilíssimo. E, fato muito mais raro ainda, era um tremendo bom caráter, generoso e nada competitivo. Uma avis rara no meio.

Nos textos que falam dele, destaca-se o seu papel como crítico musical. E, de fato, música era sua principal área de atuação. Mauro conhecia os artistas, ouvia música o dia inteiro e tinha verdadeiro amor por seu “objeto” de trabalho. Escrevia o que sentia de forma límpida e inspirada, e com grande conhecimento de causa. Junto com Tárik de Souza, era o grande crítico de música brasileira do país. Produziu material da melhor qualidade no Caderno 2, sob a forma de perfis, ensaios e crítica. Algo a ser recuperado. O Mauro gostava do contato com os músicos, gostava de gente. Através dele, conheci muita gente importante do meio musical brasileiro, como Vicente Barreto, Eduardo Gudin, Celso Viáfora, Aquiles (do MPB4), Moacyr Luz e tantos outros.

O Mauro escrevia com igual talento sobre literatura, pois, diferentemente de outros críticos da área, gostava de fato de ler, e era um leitor voraz e onívoro. Lembro que boa parte de suas férias ele as passava lendo, com grande prazer, os livros que caíssem em suas mãos. Também conversávamos muito sobre livros e autores. Lembro que Philip Roth era um dos seus escritores favoritos. Um entre tantos.

Mas o xodó do Mauro era a crônica que ele escrevia semanalmente para o Caderno 2. Nesse espaço, ele desenvolvia temas ligados à área musical, mas então buscando mais o aspecto humano que o técnico. A música e os músicos e cantores eram e sempre foram mananciais de boas histórias. Mas o Mauro buscava, em sua coluna, ser mais do que isso. Buscava ser um cronista à moda antiga, do tipo Rubem Braga, Fernando Sabino ou Paulo Mendes Campos. Era aquele escritor capaz de transformar em texto lírico e inspirado o menor dos acontecimentos do dia. E também o maior deles, como quando dedicou várias colunas ao nascimento de sua filha mais nova, Nara, nome que ele deu em homenagem a Nara Leão, a musa da bossa nova.

Digo tudo isso porque visitei o Mauro no final do ano passado, já muito doente, e conversamos sobre os bons tempos no Estadão. Conseguimos lembrar de boas histórias, casos felizes e engraçados, e acho que durante aquela hora em que passei no apartamento dele e da Cris, o Mauro foi um pouco feliz. Num momento da conversa, surgiu o assunto da crônica que ele escrevia semanalmente no Estadão. Nesse ponto, ele se emocionou e me disse: “Aquele era o meu espaço, era onde eu me encontrava para valer”. Acho que vou lembrar disso para sempre. Porque lutamos a vida inteira por isso – encontrar o nosso espaço, aquele onde nos sentimos bem, realizados e à vontade. Encontrá-lo é o paraíso. Perdê-lo, o inferno. Mas nem quando lhe tiraram a crônica, o Mauro perdeu a elegância. Aceitou como contingência da vida e…bola pra frente.

Acho que uma bela forma de homenagear o Mauro seria selecionar algumas de suas crônicas e publicá-las em livro, se isso for possível. Muitas delas têm qualidade literária e durabilidade para serem lidas com prazer em qualquer tempo. Como toda boa crônica, as dele também são muito mais duráveis que o jornal em que foram impressas.

Depois o Mauro saiu do jornal e não nos víamos mais com a mesma frequência. Por fim, acabamos por nos ver muito pouco. Minha vida foi para um lado, a dele para outro. Nossos horários e hábitos já não batiam. Mas quando raramente nos comunicávamos sabíamos que continuávamos os mesmos amigos de antes. Só não nos víamos, o que é muito comum numa cidade que isola as pessoas, como São Paulo. De amigos de todos os dias, viramos amigos à distância. O afeto era o mesmo e recíproco.

Vai em paz, meu amigo.

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