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Messi e os argentinos

Luiz Zanin Oricchio

29 Janeiro 2012 | 22h10

Até onde vai Lionel Messi? Ninguém pode saber, mesmo porque seus fãs de carteirinha entendem que ele não precisa provar mais nada. Melhor jogador do mundo por unanimidade, ganhador por três vezes seguidas da Bola de Ouro da Fifa (fato inédito), Messi já se estabeleceu como o grande jogador da nossa época. Um tipo ideal. Um patamar elevado, a partir do qual se medem os outros. Não há contestação quanto a isso.

O que gera polêmica é a pergunta que abre este texto. Porque refletir sobre até onde Messi ainda pode ir leva a comparações com outras épocas e outros jogadores. Do seu tempo, Messi já é dono absoluto. Agora, começa a ameaçar o tempo e o espaço dos outros. Será um dia seriamente comparado a Pelé, por exemplo? O Rei entrincheira-se em suas estatísticas monstruosas: “Quando ganhar três Copas do Mundo e fizer 1283 gols, voltamos a conversar”. Ponto. Como dele disse o cronista Paulo Mendes Campos, “Pelé é um problema sem solução”. Então não conta. Está fora dos termos de comparação e é melhor deixá-lo em paz.

Mas há Maradona. Diego Armando Maradona, até agora tido como o melhor jogador argentino de todos os tempos e objeto de adoração em seu país, onde existe até mesmo uma folclórica “Igreja Maradoniana”, com seus ritos e devotos. Se Lionel ultrapassar esse limite, e um dia destronar dom Diego, poderá também ser adorado num altar pelos fanáticos.

Mas, até lá, terá de comer muita bola – no bom sentido do termo, claro. Mesmo porque, Messi não é unanimidade na Argentina. Pesa contra ele o fato de ter saído ainda garoto para ser adotado por um clube do qual não pretende sair, como declarou recentemente. “Fico no Barcelona até quando me quiserem por aqui”. E quem não vai querer um Messi? Foi o Barcelona que o acolheu criança ainda e financiou o tratamento da deficiência hormonal que dificultava seu crescimento. Para todos os efeitos, Messi vem das categorias de base, da “cantera”do Barça. Mora na Espanha desde os 13 anos. É, na prática, um espanhol.

Ou será que não? Ouçam-no falar e escutarão o mais puro sotaque dos nossos hermanos. Carregado mesmo, forte como que de propósito. Em qualquer outra circunstância, um menino criado na Espanha teria acento original menos nítido. Não Messi. Ele parece cultivar o “argentinês” como um signo de identidade cultural. A dizer que continua argentino, e por escolha própria. De fato, poderia ter optado pela seleção espanhola. Preferiu a argentina.

Só que a escolha pela nacionalidade argentina, a expressão oral preservada, o futebol excepcional que exibe pelos campos do mundo, nada disso por enquanto o tornou amado por completo em seu país de origem. Por que será?

Talvez – é uma hipótese – ainda não nos tenhamos habituado por completo ao futebol dito globalizado, no qual dificilmente os jogadores sul-americanos mais habilidosos permanecem em seus clubes e países de origem. Maradona teve toda uma história no futebol argentino, inclusive no popularíssimo Boca Juniors, antes de triunfar no Napoli. E levou sua seleção à conquista da Copa do Mundo em 1986, com algumas partidas de antologia, inclusive os dois gols contra Inglaterra, em jogo de alto significado, que simbolizava a revanche da Guerra das Malvinas. Tudo isso sedimenta a imagem de um craque no coração da sua gente.

Essa ligação, Messi ainda tem de construir. Até agora não jogou pela seleção argentina o que rende pelo Barcelona. Não importa dizer que na seleção não tem ao seu lado Xavi e Iniesta, e não tem, acima de tudo, o fabuloso entrosamento que torna o time catalão a máquina azeitada, que conta justamente com ele, Messi, como ponto de desequilíbrio a vergar o mais tinhoso dos adversários. O torcedor não quer saber.

E não serão palavras, ou sotaques, as pedras para construir esse elo mágico com seu povo, essa aura que transforma o craque em mito: apenas os atos têm esse poder. Atos que, no caso de um jogador, são as grandes conquistas. Daí que Messi tem em 2014 a sua grande oportunidade. Se com grandes atuações e lindos gols conduzir seu país à vitória na Copa do Mundo, e ainda por cima no país do maior rival, todas as resistências a Messi cairão.

Campeão do Mundo, e no Brasil, o pequeno Lionel ganhará o seu templo. Que tal uma Igreja Messiânica? Provavelmente com sede em Rosário, sua terra natal, a mesma de um certo Ernesto Guevara de la Serna. Que também fez carreira no exterior.

(Aliás, 29/1/2012)

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