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Menos que Nada, e as idéias de Freud

Luiz Zanin Oricchio

20 Julho 2012 | 09h00

Uma das frases mais pessimistas (ou apenas realista?) de Freud é sobre transformar o sofrimento neurótico em infelicidade comum. A psicanálise seria apenas isso? E a tal da felicidade, obsessão dos nossos dias? Bem, para Freud, chato dizer, a felicidade não é um bem cultural. Ao contrário: tal qual a sonhamos, a felicidade seria incompatível com a civilização, baseada na repressão dos instintos. Essas ideias estão por trás de Menos Que Nada, o novo filme de Carlos Gerbase.

Como protagonista, um homem internado num hospital psiquiátrico, Dante (Felipe Kannenberg), que repete compulsivamente alguns gestos e emite grunhidos inarticulados. Uma psiquiatra jovem, Paula (Branca Messina) resolve ajudar esse doente tido como crônico e incurável. Mais algumas personagens vão aparecendo, como a bela arqueóloga René (Rosanne Mulholland), uma outra mulher atraente e conhecida de Dante desde a infância, Berenice (Maria Manoella), casada com um marido violento, etc.

Não se trata aqui de detalhar a trama, mas apenas indicar que a hipotética cura de Dante passaria pela recuperação da sua história, da qual ele parece privado, na doença. Expressa uma visão um tanto esquemática da psicanálise, mas coincide com a dos primeiros passos dessa nova disciplina, a da última década do século 19, da cura “catártica” pela rememoração do episódio traumático. Ainda é a imagem que dela tem o senso comum, como se vê em filmes como Freud Além da Alma, de John Huston, ou no recente Um Método Perigoso, de David Cronenberg. A ideia perigosamente fácil do trauma e do resgate do esquecimento, que teria valor de cura. Ou, pelo menos, de atenuação do sofrimento neurótico.

As coisas não são tão simples. Não basta lembrar de como fomos infelizes para deixar de sê-lo, como logo percebeu o próprio Freud. O filme não cai nessa ingenuidade, embora use a teoria de modo simplista.

O problema reside mais na trama, rocambolesca a ponto de parecer por vezes artificial. Nos diálogos, nem sempre bem construídos, e em algumas interpretações, pouco convincentes. O drama psicanalítico, assim encenado, perde seu impacto. Menos Que Nada pode gerar bom debate em torno da internação psiquiátrica e das modalidades de tratamento. Por fragilidade de estrutura interna, não provoca no espectador o impacto dos grandes dramas – alguns dos quais inspiraram Freud na construção de sua teoria.

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