Memórias cavadas no subsolo
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Memórias cavadas no subsolo

Luiz Zanin Oricchio

25 Julho 2012 | 09h48

O diálogo com as letras é sempre presente na carreira de Sylvio, com atestam sua cinebiografia poética Cruz e Souza – o Poeta do Desterro, e também com a versão do suicídio em Petrópolis do escritor austríaco Stefan Zweig, na produção internacional Lost Zweig, baseada no livro de Alberto Dines, Morte no Paraíso. A vocação de diálogo com a literatura continua agora na adaptação do romance do escritor alagoano Graciliano Ramos, Angústia, prevista para o início do ano que vem.

Ganhando musculatura para o desafio, Sylvio já filmou o documentário O Universo Graciliano, com locações em Maceió e Rio de Janeiro, uma espécie de preparação para a abordagem da ficção do autor alagoano. “O filme vai ao encalço de rastros, sombras e escombros imemoriais em torno e sobre o genial Graciliano, que viveu de 1892 a 1953”, conta. Esse documentário prospectivo é definido pelo cineasta como espécie de “ensaio geral” com vistas à abordagem de Angústia, romance jamais filmado de Graciliano. O difícil trabalho de passagem da prosa do escritor alagoano para as telas terá início no final do ano.

A prática do “documentário prévio” vem ganhando adeptos. Basta lembrar que, antes de Back, Walter Salles filmou um doc percorrendo as trilhas da beat generation como aquecimento para adaptar o clássico de Jack Kerouac On the Road, que ganhou o título em português de Na Estrada e continua em cartaz nas salas brasileiras depois de haver participado do Festival de Cannes.

Mas o desafio maior vem com a filmagem desse grande romance brasileiro que é Angústia. “Para o início do ano que vem estou
preparando as filmagens em Maceió e no Agreste alagoano do romance
“Angústia”, com roteiro de minha autoria, e cuja produção encontra-se
atualmente em fase de captação de recursos”, diz Back. É um projeto que Sylvio vem “acarinhando” faz sete anos.

Sabe que, além das dificuldades intrínsecas da versão para a tela terá de enfrentar comparações. “Dos livros “clássicos” de Graciliano, vc, sabe, é o único ainda não filmado; os demais, “Vidas Secas” e
“Memórias do Cárcere”, ambos de Nelson Pereira dos Santos, e “São Bernardo”, de Leon Hirszman, são hoje obras seminais do cinema brasileiro. Por aí pode-se aquilatar a minha responsabilidade”, diz. De fato, Vidas Secas é tido como uma das obras clássicas do Cinema Novo, assim como São Bernardo. Memórias do Cárcere foi o filme considerado como símbolo do processo de abertura política que se realizava no país, após 20 anos de ditadura. Mas, para além de sua implicação política, a qualidade estética desses filmes se impõe como padrão e patamar.

Angústia é também um grande desafio. É, talvez, o mais “existencial” e atormentado dos romances de Graciliano. Seu personagem, Luis da Silva, sem deixar de ser brasileiríssimo e nordestino, tem um toque dostoievskiano. A narrativa flutua entre a vida presente do funcionário Luis e recordações da sua vida pregressa, da morte do pai e do amor por Marina. O  engraçado é que, a certa altura da narrativa, o personagem não deixa de destilar sua raiva contra uma invenção moderna que, de acordo com ele, seria contra a moral e os bons costumes – o cinema. Como será isso visto na tela – como um metacomentário cinematográfico.

O fato é que as dificuldades são muitas. Narrado em primeira pessoa, com linha temporal fragmentada e uma densidade psicológica difícil de encontrar em personagens contemporâneos, sejam do cinema ou da literatura, Angústia é uma das obras-primas da literatura brasileira moderna. Para vertê-lo para o cinema, é preciso, primeiro, compreendê-lo de forma profunda. Foi o caminho escolhido por Back. “As pesquisas para
filmar “O Universo Graciliano” nasceram à época da escritura do roteiro de “A Angústia” (é o título como o livro irá às telas), quando me dei conta que até então ninguém havia realizado um filme sobre a vida-obra-e-morte de Graciliano Ramos”, diz.

Aprofundando-se no ambiente em que viveu Graciliano Ramos, o cineasta acredita ter uma visão abrangente sobre o personagem e sua obra. “Confesso que imergindo nele, até compreendi melhor as vísceras morais do romance”.

Fãs de Graciliano, ficamos na torcida.

 

 

Sylvio Back, editor

O lançamento da edição fac-similar do periódico Letras e/& Artes, editado por Back entre os anos 1959 e 1961, é testemunho dessa familiaridade do cineasta com a literatura. O suplemento era publicado aos domingos pelo jornal Diário do Paraná, órgão que fazia parte do grupo Diários Associados. A edição consta de 84 páginas, no tamanho do jornal da época, 94 cm x 64 cm, grande para os padrões atuais. O fac-símile está fora do comércio, tendo sido enviada a bibliotecas, universidades, colecionadores e bibliófilos.

Pena não ter distribuição mais abrangente, pois é excelente amostra do jornalismo cultural praticado na virada dos anos 1950 e 1960 – e justamente fora do eixo Rio-São Paulo, cidades onde dominavam as duas publicações mais influentes da época, o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil e o Suplemento Literário de OEstado de S. Paulo.

Rápida folheada no suplemento paranaense dá ideia da diversidade de assuntos abordados e da qualidade das análises. O próprio Sylvio, como era de se esperar, ocupa-se da parte de cinema, em textos substanciosos, longos e analíticos, conforme era uso na época. A qualidade também é notável.  Ao lado de uma reflexão de Back sobre o documentário, ilustrada por Goeldi, encontra-se a transcrição de um texto de Maurice Merleau-Ponty sobre a “psicologia do ritmo cinematográfico”. Pode-se entender o espanto que causou tal tipo de literatura. Houve resistências também. Sylvio conta que os artigos produziam “reações furibundas na micro intelectualidade curitibana da época”. Por sorte, havia também a repercussão positiva dos leitores, o que garantiu a sobrevivência do suplemento por dois anos e 85 números, não mais do que isso. Mas valeu: “A Letras e/& Artes está na minha origem de cinéfilo, crítico de cinema e escritor”, disse Back ao Estado.

 

 

(Caderno 2)