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Melodrama na Amazônia

Luiz Zanin Oricchio

04 Janeiro 2007 | 17h44

Já se passaram dois capítulos da minissérie Amazônia – de Galvez a Chico Mendes. Talvez seja cedo para um juízo definitivo sobre uma obra de 55 capítulos. No entanto, o tom da coisa já se vai se delineando – uma panorâmica à Jayme Monjardim (de Pantanal), com ênfase nas belezas tropicais do Brasil; um pano de fundo histórico que vai sendo montado sem complexidades que dificultem a vida do espectador; algumas historinhas palatáveis para prender a atenção do público. Caso, por exemplo, da mulher vivida por Deborah Bloch, que trai o marido com Galvez (José Wilker) e depois é traída por este. Caso da filha do trabalhador (Giovanna Antonelli, uma deusa), prometida para casamento, mas cobiçada por todos os machos da região.

Não espero muita coisa da minissérie. O que desejo é que o caráter picaresco de Luiz Galvez seja aprofundado para que haja alguma diversão. Material existe. Galvez era um tipo de folhetim e Wilker tem suficiente senso de humor para sacar o lado ridículo do tipo que interpreta. O grande Marcello Mastroianni dizia que “cinema non’è cosa seria”. Muito menos a televisão. Wilker pode dar um distanciamento à sua criação de Galvez o que, por contraste, faria dele um personagem fascinante. Se levar a sério demais, se perde.

Não se deve alimentar preconceitos em relação ao veículo TV. Mesmo porque, no mesmo formato de minissérie da Globo, já tivemos um magnífico Os Maias, dirigido por Luiz Fernando Carvalho. Da obra de Eça, Carvalho pescou o que havia de mais signficativo e levou para para a telinha uma versão com alma de cinema. Claramente Amazônia não irá por aí, pois a dramaturgia de Gloria Perez não autoriza vôos mais que rasantes. Ok, tudo é bem-feitinho e se parece com alguns filmes de época que dominam os rudimentos de figurino, direção de arte e capintaria mas ainda ignoram o essencial de como representar no presente uma outra época do passado.

Mas o real problema é saber se o fundo histórico de Amazônia – que é o que de fato importa – ficará cada vez mais desfocado à medida em que a geléia melodramática se impuser e congestionar tudo o mais. É pagar para ver.