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Melô à francesa

Luiz Zanin Oricchio

08 de outubro de 2009 | 09h47

Famílias disfuncionais são comuns no cinema, muito mais do que famílias unidas e felizes. O cinema parece seguir os passos da literatura, em especial os de Tolstoi que, na abertura de Anna Karenina, diz que todas as famílias felizes se parecem, e cada família infeliz o é à sua própria maneira. Há, assim, pelo menos certa originalidade na desgraça, o que não deixa de ser uma compensação. Em Algo Que Você Precisa Saber, de Cécile Telerman, a família triste é a dos Celliers.

A matriarca, Mady, vivida por Charlotte Rampling, é fria como gelo, e no entanto bastante empenhada em atormentar o marido rico e os filhos problemáticos. O rapaz, Antoine (Pascal Elbé), quer se tornar independente nos negócios, mas não passa de arremedo do pai. Alice (Mathilde Seigner) é artista plástica e meio metida com drogas. Numa balada ela vai presa e tem de enfrentar o policial Jacques (Olivier Marchal), casado, porém sensível à beleza feminina.

Quando Jacques se envolve com Alice, as duas famílias acabam por se aproximar. E descobrem que têm mais coisas em comum do que supõem. Contar mais seria entregar o filme. O que se pode dizer, sem estragar o prazer de ninguém, é que Cécile Telerman pretende dialogar com o folhetim e o melodrama. Portanto, quem se dispuser a ver o filme não se espante com a soma de coincidências presentes na trama. E nem com o tom utilizado para desenvolvê-la. É entrar no jogo ou sair.

Claro que a linguagem é opção da cineasta. Mesmo assim, não se pode deixar de comentar o ar um tanto antiquado escolhido. O tema do grande segredo justifica o título, não o tom empregado. Tantas reviravoltas, e tão previsíveis, não cheiram outra coisa senão a fragilidade narrativa, quer dizer, a direção meio frouxa. Tenta se compensar pelo recurso ao melodrama, através não apenas das situações emocionais clichês, como pelo uso da música e outros aditivos.

O que haveria de melhor não está nas mãos da cineasta, mas no talento de atores escolados, que se viram sozinhos. Charlotte Rampling é uma atriz superior, mas, mesmo ela escorrega em papel escrito sem muitas nuances. No momento da revelação, por exemplo, ela poderia ter se soltado mais. Mas estava tão presa ao clichê que nele perseverou. Aliás, o desfecho é dos mais previsíveis, mesmo que o espectador às vezes duvide e se pergunte se ela irá mesmo levá-lo às últimas consequências. E ela quase faz isso mesmo. Por um triz o filme não se torna a mais descabelada das novelas, mas um resto de dignidade acaba por salvá-lo, pelo menos até onde é possível.

(Caderno 2, 8/10/09)

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