‘Meio Irmão’, um retrato paulistano
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‘Meio Irmão’, um retrato paulistano

Luiz Zanin Oricchio

05 de março de 2020 | 14h10

Existem muitas questões envolvidas na trama de Meio Irmão, da estreante Eliane Coster. Há temas familiares, que se sobrepõem aos raciais, sexuais, e a vida da classe média baixa num bairro paulistano, a Vila Ré. 

Sandra (Natália Molina) é uma adolescente de 16 anos, cuja mãe sumiu. A partir de então ela precisa se virar sozinha, até mesmo para conseguir alimento. O pai, distante, trabalha numa loja de peças e não quer saber de complicações. Sandra sofre com os problemas típicos da idade e mais os da situação atípica em que se encontra. Por fim, decide procurar o tal do meio-irmão do título, Jorge (Diego Avelino), que vive e trabalha com o pai numa microempresa familiar de equipamentos de segurança. 

Sandra e Jorge são meio-irmãos por parte de mãe. Jorge é fruto do relacionamento dela com um homem negro, Wilson (Francisco Gomes). Sandra tem pai branco. A identidade da mãe de ambos permanecerá uma interrogação. Ela é a grande ausente nessa narrativa e, paradoxalmente, por isso lhe dá sentido. Essa nota interracial acrescenta uma nova camada de sentido no processo de afastamento-aproximação entre os meio-irmãos. 

O design visual do filme é baseado no despojamento (fotografia de Cleisson Vidal). Uma foto esmaecida, sem muito volume, que de maneira justa retrata aqueles personagens de poucas perspectivas. Mesmo sentido para os diálogos, secos, pouco elaborados, como acontece na linguagem falada entre pessoas marcadas pela vida dura e pela agressividade. 

O retrato é precioso, em se tratando de um estrato social pouco contemplado. Não são miseráveis famintos, não ocupam o piso da pirâmide social. São pobres. Os garotos estudam como podem. Eles e seus pais viram-se em pequenas ocupações manuais (técnicos de eletricidade, pedreiros, cabeleireiras, etc.). As redes de proteção do Estado inexistem e cada um se vira como pode. Por exemplo, quando a mãe desaparece, os credores começam a invadir a casa para levar a mobília e Sandra não pode evitar o saque. 

Para completar, Jorge, em fase de definição da sua sexualidade, testemunha uma agressão homofóbica e a registra em seu celular. Por isso torna-se alvo de um grupo fascistóide do bairro, que passa a ameaçá-lo. 

Como se vê, esse filme em aparência simples, contempla todo um caldeirão de tensões acumuladas na sociedade brasileira. Os personagens são críveis e não estão lá como ilustrações de uma definição de classe social. É também um retrato de juventude, pólo protagônico muito claro do filme. Jovens que aspiram a um futuro incerto e têm esperança de, um dia, sair do bairro, “da Ré”, como se referem, de maneira familiar. Mas, para onde? 

Sair, fugir, escapar – os verbos mais conjugados do Brasil contemporâneo. 

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