‘Medusa’ e a distopia neopentecostal
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‘Medusa’ e a distopia neopentecostal

Luiz Zanin Oricchio

13 de julho de 2021 | 20h19

Os homens formam milícias e as mulheres não ficam atrás. Saem às ruas para detonar outras mulheres, tidas como desviantes da moral e dos bons costumes. Eles e elas estão em Medusa,  distopia neopentecostal imaginada por Anita Rocha da Silveira, participante da Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes.

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É um filme duro, imaginativo, consistente. Mostra, sem desviar o olhar, a estrada perdida em que nos metemos, sem saída à vista. 

A protagonista dessa encenação apocalíptica é a jovem Mariana (Mari Oliveira), enviada para uma escola onde as moças aprendem a ser boas esposas, virtuosas, recatadas e do lar. A fé em Jesus é personificada por um pastor carismático (Thiago Fragoso), que exorciza possíveis desvios demoníacos. Mas não apenas. 

Circula, entre as moças, a história, ou lenda urbana de uma mulher pecadora (Bruna Linzmeyer) que teve o rosto desfigurado por ação de uma corajosa militante evangélica, que assim procedeu para banir o pecado da comunidade. 

Muito do Brasil contemporâneo entra na mistura dessa ficção demasiado próxima da realidade. A comunidade fecha-se em si. “Não confie nas pessoas de fora”, recomenda-se. Não se informem por fontes duvidosas, como a imprensa ou a TV. Tudo o que for preciso saber será fornecido pela própria comunidade, assim as informações serão sadias e corretas. De acordo com o Evangelho. 

Mas se a comunidade deve fechar-se em si não pode negligenciar suas tarefas de evangelização e fiscalização do restante da sociedade. Daí as incursões noturnas à caça de pecadores e, sobretudo, de pecadoras, que deverão ser punidas pelo desvio, desestimuladas de perseverar no mal e banidas. No limite, poderão ser desfiguradas, pois este é o castigo e preço imposto à beleza e ao desejo a ela associado. Coisa do demônio. 

No centro da trama, há esse desejo de impor a moral própria ao conjunto da sociedade. Mais uma alusão direta: lembre-se de que no começo da gestão federal, a ministra Damares pronunciou esta frase singela: “Chegou a hora de a igreja governar”. Ou seja, chegou a hora de impor valores não apenas ao seu rebanho, mas aos infiéis que compõem o restante da sociedade. Estes têm de ser submetidos. Ou perecer. 

O filme desdobra-se num thriller de descoberta, em que Mariana segue a pista da tal mulher desfigurada. Por quê? Porque, provavelmente, está nela a pista desse sistema opressivo que a todas atinge. Sim, todas, porque o que se discute, no fundo, é a opressão feminina, possibilitada por um machismo intolerável. E tão mais intolerável quando praticado por mulheres. Daí não se estranhe a chegada ao paroxismo e a um grito primal libertador. É no que o filme, de distópico, passa a utópico. Supõe que a sobrecarga da repressão provoque a explosão da bolha. De maneira incontrolável, e com consequências desconhecidas. 

Medusa coloca-se ao lado de filmes recentes que discutem o peso das crenças evangélicas sobre a sociedade e a cultura do país, como Azougue Nazaré (2018), de Tiago Melo, e Divino Amor (2019), de Gabriel Mascaro.

Ao afrontar o fundamentalismo religioso e sua sede de poder, Medusa coloca-se como filme político por definição. 

 

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