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Mea culpa, Cortazar e Gervitz

Luiz Zanin Oricchio

31 de agosto de 2008 | 16h38

Escrevi hoje, no Cultura, um artigo sobre versoes para o cinema de textos de Julio Cortazar. Acabo de receber um e-mail de Roberto Gervitz, puxando minhas orelhas pela omissao do seu filme Jogo Subterraneo, tambem adaptado do autor argentino. Fica o reparo. Abaixo, segue o e-mail do Gervitz e o texto do Cultura.

Prezado Zanin,

estranhei a omissão de meu filme, Jogo Subterrâneo, em artigo que você escreveu sobre as adaptações para o cinema da obra de Cortázar. Afinal, no Brasil, creio que somente Guilherme de Almeida Prado e eu o adaptamos. Independentemente de que o filme o tenha agradado, além de que o leitor mereça tal informação, creio que nesse trabalho, o Jorge Durán e eu praticamos a mesma liberdade que você advoga para as adaptações…Um abraco, Roberto.

Texto do Cultura

Não resta dúvida de que a adaptação mais conhecida de um relato de Julio Cortazar para o cinema seja Blow Up – Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni. Mas o filme – uma das obras-primas do mestre italiano, deve ser considerada não uma versão literal, ou mesmo muito aproximada, do relato do argentino – é, antes, uma adaptação muito livre, que se inspira mais no espírito do texto em que em sua “letra”. O conto é Las Babas del Diablo (do livro As Armas Secretas) e o filme que dele Antonioni tira guarda o que poderíamos chamar da intriga central. Um crime é cometido e, ao aproximar-se do local do assassinato (pois é disso que se trata), uma testemunha descobre o delito. Mas nada sabe do criminoso.

Toda a arte de Cortázar, em seu texto, será mostrar como a realidade é, por assim dizer, decupada em camadas, das quais percebemos, em geral, apenas a mais superficial. No entanto, existe algo que insiste, e que nos tira do torpor cotidiano, como um sintoma. Algo como a insistência de de um “real”, por baixo da realidade mais habitual, para usar termos da psicanálise de inspiração lacaniana. E é disso mesmo que trata Blow Up que, expressão que, convém lembrar, designa o processo de ampliação da revelação fotográfica. O fotógrafo (David Hemmings) irá progressivamente ampliando as fotos que fez de uma mulher (Vanessa Redgrave) num parque londrino, até perceber o que parece ser um corpo inerte por detrás de uma cerca. Mas essa descoberta é apenas o começo do mistério e não a sua solução. Há que escavar constantemente nesse real que é dado, mas que também se esconde, em busca de uma essência bastante hipotética. É claro que Cortázar, através de um relato ficcional, discutia um dos antigos problemas da filosofia, que é o do acesso perfeito ao conhecimento, às coisas em si. Ter captado essa idéia central, e a incorporado à sua própria poética transformando-a num estudo também sobre as imagens, é prova do gênio de Antonioni e sua capacidade de atualizar um problema, retrabalhando-o em linguagem nova.

Afora esse caso mais famoso, Cortázar foi adaptado para o cinema, em seu próprio país, numa série de longas-metragens rodados por seu conterrâneo Manuel Antin. São filmes como La Cifra Ímpar, Circe e Intimidad de los Parques, que passaram no Brasil numa mostra promovida pelo Sesc anos atrás. Nunca entraram numa sala comercial, salvo engano. Desses filmes, La Cifra ímpar é, provavelmente, o mais bem sucedido, É baseado no conto As Cartas de Mamãe, de As Armas Secretas, e trabalha com tempos alternados na história dos irmãos que se apaixonam pela mesma mulher. É curioso assistir a esse filme porque sua realização lembra muito a de Alain Resnais em O Ano Passado em Marienbad, embora o diretor negue a influência. Mas a referência de Resnais é sempre muito forte em trabalhos que usem o tempo como matéria-prima, como é o caso. Em todo caso, de maneira nacionalista, Antin diz que foram argentinos como Borges, e o próprio Cortázar, que influenciaram os franceses, e não o contrário.

Já Circe, do conto homônimo, expressa o temor do homem em relação ao universo feminino – e também uma certa obsessão alimentar de Cortázar, que ele, à maneira psicanalítica, procurava exorcizar expressando-a; isto é, escrevendo. Em A Intimidade dos Parques, a ação, originalmente passada na Grécia antiga, é trazida para o Peru, para o santuário de Machu Picchu. São trabalhos interessantes, os de Antin, mesmo porque trabalham sobre um material de ficção de primeira linha. Nem sempre, no entanto, ele consegue dar a esse material uma transposição imagética à sua altura. Fascinado pelo texto de Cortázar é muitas vezes excessivamente respeitoso, quando sabemos que, nas adaptações, o melhor mesmo é ter disposição de trair, por respeito ao autor. E não o contrário.

Por fim, é preciso lembrar da adaptação brasileira de um texto de Cortázar, A Hora Mágica, feita por Guilherme de Almeida Prado a partir do conto Cambio de Luces, do livro Alguién que Anda por Aí. No original, Cortázar estuda como a simples mudança da posição de um abajur pode alterar completamente a percepção – inclusive psicológica, que se tem de alguém. Guilherme muda a situação, e altera bastante o conto. No caso, faz do seu personagem (Raul Gazzola) um dublador de rádio, alguém que é conhecido do público (e por uma mulher que por ele se apaixona) apenas pela voz, sem que seu rosto seja visto. Aqui, a mesma idéia, esse trabalho ficcional com o enigma humano da percepção. Nunca dominamos por completo a percepção; nunca vemos as seis faces de um cubo. Tudo é parcial, tudo é relativo e confuso. Por isso, essa abertura para a surpresa – e para o fantástico, que era a melhor característica dessa prosa estruturalmente libertária que é a de Julio Cortazar. Os que mais bem o adaptaram foram os que compreenderam essa ânsia de liberdade contida no texto.

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