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Mautner

Luiz Zanin Oricchio

14 de maio de 2012 | 11h26

A contracultura está na moda. Ou voltou à moda. Na verdade, talvez, nunca tenha saído de cena. A mensagem libertária do final dos anos 60, início dos 60 provavelmente ainda não deixou de fazer sentido e talvez faça até ainda mais. Tem sobrevivido em seus cultores mais notáveis e midiáticos, como Caetano, Gil, talvez Zé Celso e agora coloca em cena a figura de Jorge Mautner, neste belo documentário de Pedro Bial e Heitor D’Allincourt.

Não que Mautner fosse uma figura menor. Nada disso. Apenas, talvez, fosse ofuscado pelo brilho excessivo de outros. O filme o repõe em seu lugar. E, na verdade, encontra um lugar para Mautner, não apenas na vaga contracultural, mas na própria cultura brasileira, em um dos seus aspectos fortes – a diversidade étnica, o melting pot causado pela quantidade e qualidade dos imigrantes que por aqui se encontraram.

Mautner é um deles. De família já mista (judeu austríaco com católica) é um legítimo filho do Holocausto, como está no subtítulo da obra. Seus país vieram ao Brasil expulsos pela guerra e pela perseguição aos judeus. Jorge, o garoto, nasceu no barco. A família se estabeleceu no Rio mas, com o divórcio dos pais, o menino veio para São Paulo, para morar com a mãe e o padrasto. Em São Paulo, cidade de imigrantes de todos os cantos do mundo, caiu num caldeirão cultural ainda mais diversificado.

O trabalho com material de arquivo, para evocar esses anos em transe da humanidade, é muito bom. Nos joga em cheio no rumor da História e relembra que as pessoas, mesmo as mais criativas, levam essas marcas do seu tempo. Não numa relação direta de causa e efeito, é claro, mas esses artistas, como antenas da época, absorvem essas marcas, de uma maneira ainda mais visível e contundente. Mautner expressou seu tempo não apenas em, versos e músicas, mas no cinema. É roteirista de Jardins de Guerra, de Neville D’Almeida e dirigiu em Londres, o malucaço O Demiurgo, feito com sobras de negativo de Queimada!, de Gillo Pontecorvo, como informou Pedro Bial.

Transformada em característica de geração, a contestação vinha da música, dos filmes, mas também do comportamento. Uma vida “à margem do sistema”, como se dizia na época. E que não se dava sem conflitos, tanto com as autoridades constituídas, quanto com as gerações seguintes. Um dos trechos mais reveladores é o encontro de Jorge Mautner com sua filha, Amora, hoje uma conhecida atriz e diretora de TV da Globo.

Na conversa, ela cobra o pai. “Esse nome me custou muita gozação na escola”. Inútil dizer que havia a vantagem de não ter nenhuma coleguinha com o nome igual ao seu. Há uma fase da vida em que as pessoas não querem se diferenciar, querem ser iguais às outras. E filha de maluco beleza sofre. Ela se queixa também de que o pai andava nu pela casa. É engraçado, mas se você for pensar bem, não deixa de ser curioso. Uma geração rompe com tudo, ou quase tudo; a seguinte recupera valores. E assim caminha a humanidade, como diz o título daquele filme.

Dessa fricção, anda-se um pouco mais à frente. Mautner, como outros, é um desbravador de caminhos. Mesmo que o filme não entre em detalhes mais íntimos, adivinha-se uma vida de grande riqueza pessoal, ao lado da realização artística.

(Caderno 2)

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