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Maus Hábitos

Luiz Zanin Oricchio

21 de julho de 2008 | 18h47

O México cultiva a tradição da estranheza no cinema – basta pensar em Arturo Ripstein, por exemplo, ou, entre os mais jovens, em Carlos Reygadas (de Japón e Luz Silenciosa). Nunca é demais lembrar, aliás, que mestre Buñuel filmou no México, lá passou seus últimos anos e morreu. Em sua autobiografia, Meu Último Suspiro, se dizia sensibilizado pelo clima de leve absurdo que cercava o cotidiano mexicano, a devoção religiosa, o culto um tanto carnavalizado à morte. É nessa linha que se inscreve o cinema de outro diretor da geração de Reygadas, Simón Bross, autor de Maus Hábitos, que chega agora aos cinemas brasileiros. O primeiro aviso a ser dado ao espectador é para não confundi-lo com o filme homônimo de Pedro Almodóvar. Aliás, o nome igual não é fruto de nenhuma má intenção, do tipo ”pegar carona no mais conhecido”. É que o título em espanhol é mesmo Malos Habitos. E, no caso, foi com o filme de Almodóvar que a tradução brasileira se revelou criativa, ao traduzir por Maus Hábitos o muito mais alusivo Entre Tenieblas.

Enfim, questão de terminologia. Mas o título parece bastante significativo no que se refere às duas histórias básicas que compõem a narrativa. Numa delas, uma freira (Ximena Ayala) jejua à espera de um milagre. Na outra, uma mãe magérrima (Elena de Haro) lida com dificuldade com sua filha obesa a quem tenta enquadrar num duro regime alimentar.

O que se tem aqui, num ambiente de luz natural e enquadramentos pouco usuais, é a presença da aura mística que tanto espanto causava em Buñuel e, depois, em Ripstein. A freira Matilde, vivida por Ximena, é um protótipo desse relacionamento complicado com a fé, no qual a abstinência só faz sentido quando convive com o desejo de transgredi-la. Nesse mundo de tentações, que pode ser sexual ou de qualquer dos outros sentidos, a possibilidade de cair em pecado sempre existe. Dessa dialética entre o ascetismo e o desejo que o ronda, nasceram grandes obras. E, aqui, Simón Bross se debruça sobre o desejo alimentar.

Essa tentação se desdobra na segunda história. Se na primeira trata-se de uma freira empenhada em jejuar para evitar uma catástrofe natural que, pressente, vai se desencadear sobre a cidade, na segunda, se trata de jejum, vamos dizer assim, laico. Pois Elena (Elena de Haro) é uma mulher magra e bela, cuja filha, Linda (Elisa Vicedo) não consegue emagrecer para o dia da sua primeira comunhão. Ou seja, temos aqui a presença de novo da religião, mas sob outra forma. A primeira comunhão trata-se de uma cerimônia pública, de um ato social para o qual é preciso estar ”apresentável”. Ou seja, dentro de padrões estéticos da sociedade.

Dessas duas tramas entrelaçadas (em mais de um sentido) Bross tira uma narrativa interessante, embora se possa fazer a restrição ao que nela existe de estiloso, uma espécie de concessão que o cineasta faz às possibilidades da linguagem cinematográfica. Existe de fato essa tentação, tão grande em jovens cineastas quanto a fome nos personagens de Maus Hábitos – experimentar novos caminhos e tentar mostrar-se diferente. Mas o filme tem substância. E cava sua força no fundo de religiosidade que subsiste, mesmo em sociedades ditas laicas, como as contemporâneas.

(Caderno 2, 21/7/08)

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