‘Match Point’: Woody Allen para olhares adultos
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‘Match Point’: Woody Allen para olhares adultos

Luiz Zanin Oricchio

05 de janeiro de 2020 | 11h33

Num momento de ócio, assisti de novo Match Point, de Woody Allen. Que belo exemplar de cinema adulto, capaz de lançar um olhar para os desvãos mais escuros da alma humana, sem se deter diante da paralisia politicamente correta e nem propor soluções moralizantes. 

Para quem não lembra, Match Point é a história de um professor de tênis, Chris (Jonathan Rhys Meyers), que se torna queridinho de uma família rica. Ensina tênis para o primogênito da família, namora e depois casa com a herdeira, Chloe (Emily Mortimer), mas dá um compreensível mau passo ao se apaixonar pela bombshell Nora Rice (Scarlett Johansson). Num determinado momento, Chris deverá optar entre a boa vida que passou a levar e a obsessão sexual por Nora que, grávida, ameaça o conveniente casamento do tenista. 

Para quem conhece a obra de Allen, Match Point se parece muito a Crimes e Pecados. Ambos falam de amor, traição…e assassinato. Ambos têm Dostoievski como fonte – em especial o Dostoiévski de Crime e Castigo. Só que Chris é uma espécie de Raskolnikov contemporâneo, em quem a culpa é atenuada em nome dos benefícios financeiros do crime. 

Além disso, Allen introduz outra variante, que se torna o verdadeiro tema da verdade – o poder do acaso na vida das pessoas. O acaso é terrível. Por mais que se planeje tudo, ele entra em campo em momentos cruciais e a sorte ou o azar de cada um faz toda a diferença em seu destino. 

Para usar a metáfora do título do filme e também a relação deste com a profissão original do protagonista: no momento decisivo da partida, quando a bolinha bate na rede e sobe, tudo depende de que lado do campo irá cair. Se for no do adversário, você ganha tudo; se for no seu, perda total. Céu e inferno mas mãos de um deus que, ao contrário do que afirmava Einstein, joga dados e aposta no tudo ou nada. E parece ter prazer nisso. 

O filme é todo pontuado pela música de ópera (Caruso, em especial, com Una Furtiva Lacrima), uma Scarlett Johansson esplendorosa, justificando a obsessão de Chris, e o timing de suspense de um Hitchcock (sobretudo na sequência do duplo assassinato). Filme de reflexão sobre o lado escuro da natureza humana, a ganância, o egoísmo, e também sobre o acaso e a impotência da justiça diante do crime. Filme adulto, repito, que pede uma audiência adulta. Ainda a teremos em 2020, 14 anos após o lançamento de Match Point? Tenho dúvidas: o grau de infantilização do público na última década me parece de uma evidência cavalar. 

Woody Allen não é “cancelável”. 

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