Mataram meu Irmão
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Mataram meu Irmão

Luiz Zanin Oricchio

23 de novembro de 2013 | 10h59

Mataram Meu Irmão. É assim, num filme testemunhal, em primeira pessoa do singular, que Cristiano Burlan relata o assassinato do seu irmão, Rafael Burlan, atingido por sete tiros numa noite de outubro de 2001 no bairro do Capão Redondo, periferia de São Paulo.

Bem, é preciso coragem para fazer o que Cristiano Burlan fez. Antes de tudo, pela exposição a que submete a si mesmo e a sua família. Muita coisa é revelada no filme. Rafael foi assassinado. O outro irmão de Cristiano, Tiago, entrevistado por telefone, cumpre pena em penitenciária de Cuiabá. Outro irmão esteve preso. O pai, alcoólatra, morreu de uma queda na qual bateu a cabeça no meio fio quando estava bêbado. A mãe de Cristiano casou-se de novo e foi morta pelo marido e padrasto de Cristiano. O assassino está foragido. Cristiano, aliás, pretende realizar novo documentário, desta vez sobre o homem que matou sua mãe.

Mas, enfim, tanta exposição encontra seu sentido quando a serviço deste filme, uma das mais profundas imersões no mundo da violência urbana e da droga, termos associados, sabemos todos. O fato de essa díade infernal atingir de maneira tão contundente uma mesma família faz dela algo de exemplar.

Mesmo porque, no caso, não se aplicam quaisquer estereótipos associados ao mundo do crime ou da droga. Nas entrevistas de alguns parentes – a tia, a irmã, a viúva de Rafael e seus dois filhos – vemos, pelo contrário, gente de classe média. Pessoas bonitas, simpáticas, que moram em casas de classe média, bem cuidadas e de boa aparência. Gente como a gente, enfim.

Por meio do depoimento dessas pessoas – e também de outros personagens, como um amigo íntimo da casa – uma espécie de retrato falado, psicológico e social, de Rafael Burlan vai se compondo diante dos nossos olhos.

Note-se a polifonia com que esse perfil é construído. Se parece normal que parentes e amigos falem bem da pessoa doce que Rafael teria sido na intimidade, também não se esconde o fato de ele estar envolvido com drogas e furtos de automóveis em sua vida errática. O crime teria acontecido porque Rafael furtara um carro e fora cobrar sua parte do aos receptadores.

A maneira de apresentar os fatos e as pessoas neles envolvidas é deliberadamente seca, de modo a afastar qualquer sentimentalismo. Na abertura, uma tela preta; ouvem-se duas vozes. Na gravação de um telefonema, o diretor pergunta à funcionária de um cemitério pelo destino dos restos mortais do irmão. Esses primeiros movimentos do documentário dão uma ideia do que virá. Uma prospecção de personagem, levada a cabo por seu irmão. Há uma questão em contraluz, que será tocada, mas não respondida: até que ponto conhecemos alguém que viveu ao nosso lado, alguém tão íntimo como pode ser um irmão de sangue e convivência?

Mas não há, por parte do cineasta, uma relação de estranhamento em relação àquele mundo de Rafael, como se dele não fizesse parte. Não faz, de fato. Nem escapou dele pelas graças do cinema, como diria uma visão moralizante. Traz aquele mundo consigo e sabe que, por algumas circunstâncias favoráveis, não teve destino semelhante. Mas a relação é muito mais de pertencimento que de estranhamento.

Daí que, quando conversa com o irmão presidiário por telefone, a imagem é a de uma foto, fixa, de três garotos se divertindo no mar. Deduz-se que sejam ele, Rafael e Tiago. Nenhum discurso piegas em cima dessa imagem muda. Apenas o diálogo telefônico entre os irmãos, o preso queixando-se do calor da cela e dizendo que Rafael se envolvera com gente da pesada, com crack, com furto. O tom não é moralizante. Não pode ser. Apenas descritivo. Já a emoção flui com a viúva. “Ele pensava demais”. E a filha, agora adolescente: “Ele gostava de cantar. Gostava de rap.” Como não se emocionar?

Essa, a imagem multifacetada de Rafael Burlan, que se envolveu com drogas, com gente que não devia, se deu mal e morreu com 22 anos. Da sua imagem física, mesmo, só nos é apresentada a série de retratos da perícia, fotos de um morto jovem, caído numa vala, crivado de balas. Mataram Meu Irmão o resgata da anônima estatística policial e lhe devolve a face humana. É um verdadeiro trabalho fraterno.

 

 

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