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Marketing intelectual

Luiz Zanin Oricchio

03 de novembro de 2008 | 13h26

Os dois são muito bem-sucedidos, e estiveram em campos opostos na fronteira política. O filósofo e articulista Bernard-Henri Lévi defendeu a socialista Ségolene Royal, enquanto o romancista Michel Houllebecq ficou com o conservador Nicolas Sarkozy. Trocaram farpas pela imprensa. E, sobretudo, trocaram cartas, algumas de alta temperatura polêmica. Curiosamente, uniram-se num projeto comum, o da publicação dessas cartas, que sai agora pela Frammarion-Grasset (336 págs., 20) com o título de Ennemis Publics.Quer dizer, os antagonistas tornaram-se sócios, num livro de nada menos de 100 mil exemplares de tiragem inicial. É um dos xodós da temporada literária francesa e ganhou capa de Le Nouvel Observateur,que adiantou trechos das cartas aos leitores.

No texto de introdução à matéria, a revista classifica o livro de bem-sucedida operação de marketing. Sobretudo pela maneira como Lévi e Houllebecq se reuniram – fazendo-se, ambos, de vítimas de diversos setores da sociedade, entre os quais a mídia. Anote-se aqui que Lévi, mais conhecido na França pelas iniciais, que já viraram uma espécie de logotipo – B.H.L. – mantém há muitos anos uma prestigiada coluna na concorrente da Nouvel Observateur, a também semanal Le Point,de feição mais conservadora.

Boa parte das cartas se resume a diatribes contra tudo e contra todos – jornalistas de má-fé, blogueiros, internautas, adversários ideológicos, enfim, o mundo todo. A Nouvel Obs se pergunta por que motivo dois dos mais “exportáveis” escritores franceses teriam tantos motivos para queixar-se da vida. B.H.L é autor de vários livros traduzidos em português, entre eles American Vertigo, sobre os Estados Unidos. Houllebecq também está vertido em português e seus romances A Possibilidade de Uma Ilha e Partículas Elementares venderam bem por aqui. A única resposta possível para a pergunta que a revista se coloca é: ambos têm grande facilidade para vender-se como polemistas do momento.

Marketing à parte, a revista admite que, passada a primeira irritação com o oportunismo dos dois autores, pode-se encontrar, nas cartas, muito talento e encanto literário. É quando, por exemplo, cansado de destilar seu fel a respeito da perseguição que sofre dos jornais, B.H.L. se digna a falar de seus autores favoritos – Espinosa, Sartre, Flaubert, Mallarmé, Aragon e Levinas. O mesmo faz Houllebecq a respeito de Pascal, Schopenhauer, Baudelaire, Comte. Ambos também se reúnem no gosto pela poesia, “ao lado da qual o romance permanece um gênero menor”. Enfim, quando esquecem supostas perseguições e comportam-se como intelectuais civilizados, quem ganha é o leitor.

(Cultura, 2/11/08)

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