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Marighella, de frente e de perfil

Luiz Zanin Oricchio

10 de agosto de 2012 | 08h47

Nos anos de chumbo da ditadura brasileira ele chegou a ser considerado o inimigo público número 1. Carlos Marighella morreu numa emboscada do delegado Sérgio Paranhos Fleury no dia 4 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, em São Paulo. Fim do homem, não da lenda. Enquanto durasse a resistência armada ao regime, o nome de Marighella seria lembrado como exemplo a seguir. Passada a ditadura, permanece como ícone.

Marighella foi objeto de um filme do diretor francês Chris Marker, há pouco falecido. É tema da biografia escrita pelo jornalista Mario Magalhães, a ser lançada este ano. Do livro deve sair um retrato inteiro, vendo o guerrilheiro em sua complexidade e contradições. Magalhães foi consultor do filme de Isa Grispum, sobre seu tio Carlos Marighella, Mas é como retrato de família, em primeiro lugar, que esse belo documentário deve ser visto.

Ele parte das lembranças de Isa sobre esse tio misterioso, que aparecia e sumia de sua casa da maneira mais inesperada. Lembra de como era carinhoso e atento, embora sempre cercado de uma aura de mistério (claro, era o homem mais procurado do País) e de como uma noite, durante a transmissão do jogo entre Corinthians e Santos, a família soube, pela televisão, que ele havia sido morto.

A essas recordações pessoais, mescla-se a parte propriamente histórica do documentário. Lembra a trajetória do quadro histórico do Partido Comunista Brasileiro, que rompe com suas origens. Marighella sai do Partidão porque considerava pífia a resistência passiva diante do governo militar. Opta pela luta direta, cria a ALN e combate as armas com armas. Falha. Nessa reconstrução de trajetória, a diretora ouve o filho do guerrilheiro, Carlos Augusto Marighella, sua viúva, Clara Charf, além de personalidades como o professor Antonio Candido, que o define como “herói do povo brasileiro”.

Por outro lado, Isa usa recurso original – o ator Lázaro Ramos narra em off poemas escritos pelo guerrilheiro. Sim, Marighella era também escritor e poeta, faceta que poucos conhecem. Para terminar, um rap lisérgico, composto e interpretado por Mano Brown, saúda o guerrilheiro. O filme termina lá em cima.

Esse é o tom, emocional, talvez pouco analítico e nada “jornalístico”. Não se preocupa em ouvir o outro lado, como manda o manual básico do jornalismo, porque tanto na época como hoje, haverá quem considere a trajetória do guerrilheiro sob outras luzes. Cinema não é jornalismo. Essa imparcialidade ficará por conta da biografia a ser lançada. O que temos em Marighella, o filme, é um ponto de vista. Ele não deixa de lembrar que, fossem quais fossem suas ideias, Marighella morreu ao defendê-las, sem recuar um passo. Quantos fariam o mesmo?

(Caderno 2)