Maria Stuart, de John Ford
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Maria Stuart, de John Ford

Luiz Zanin Oricchio

30 Junho 2011 | 08h29

Talvez em Mary Stuart, Katherine Hepburn tenha o grande papel de sua vida. Ela é nada menos que estupenda ao interpretar a trágica rainha da Escócia que renega o grande amor de sua vida para manter o poder. Mesmo assim o perde assim, como perde a vida no confronto com a rainha da Inglaterra, Elizabeth. Katherine, que durante a filmagem mantinha um caso com o diretor John Ford, dá mostras aqui de uma entrega completa ao papel. Esse é um dos pontos altos do filme.

O outro, o absoluto equilíbrio com que Ford conduz a trágica intriga palaciana. Como estamos aqui longe do universo em geral associado ao diretor – o do western – poderia haver o temor de certo ranço, muitas vezes presente no filme histórico transformado em museu de imagens. Nada disso. O rigor dos planos, o despojamento dos meios e a concentração com que Ford distribui os elementos visuais fazem de Mary Stuart uma grande experiência cinematográfica. Ford não faz um museu da história; faz com que ela renasça, com todo o frescor diante dos nossos olhos.

Katherine, mais uma vez, é responsável por essa sensação de vida. Em especial quando surge, de volta à Escócia depois de haver passado 30 anos na França. Numa corte formada por conspiradores, em dois ou três diálogos, ela consegue distinguir quem são seus inimigos e aliados. Quem poderá lhe valer na hora da dificuldade e quem está apenas bajulando e trocará de barco na primeira tempestade. A arte de Ford consiste em apresentar a complexa disputa pelo poder sem qualquer firula discursiva. Com poucas frases e um trabalho sábio na composição das imagens, ele nos traz para dentro dessa guerra travada à distância entre as duas mulheres. Como o próprio Ford dizia, rabugento, ele era um homem do cinema mudo. Homem de poucas palavras. Habituado a resolver suas dificuldades de expressão contando apenas com a força das imagens, sem a muleta do verbo. Quando o sonoro chegou, John Ford estava pronto para enfrentá-lo, sem baratear sua forma de expressão. Isso é o que o faz grande.

De modo que somos conduzidos pelo drama de Mary Stuart através dessa forma suntuosa em que Ford o inscreve. Mary é toda poderosa quando aparece em primeiro plano ao chegar e sentar-se ao trono; é pequena quando renuncia ao Conde Bothwell (Frederic March) e sai por uma porta que parece engoli-la. É enorme quando os olhos de Katherine brilham e enfrentam os juízes, colocados num plano superior. Depois se fragiliza ao saber da morte do amado e ao consentir sentar-se na cadeira – ela que encarara em pé seus algozes. Por fim, é grandiosa no momento terrível do cadafalso.

O drama de Mary Stuart poderia ser descrito como o da intermitência do poder, sua oscilação, que se expressa no corpo da rainha.