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Maria, cheia de graça

Luiz Zanin Oricchio

15 Abril 2007 | 11h23

Amigos, segue a minha crítica ao filme Maria, do diretor Abel Ferrara. Abraços e bom domingo a todos. Clique aqui para ver o trailer.

A áspera religião de Abel Ferrara

Abel Ferrara apresentou seu Maria no Festival de Veneza de 2005 e não se pode dizer que tenha sido bem recebido. Para falar a verdade, ganhou vaias na sessão de imprensa (na oficial não vale: todo mundo é aplaudido). Incompreensão dos jornalistas? Talvez, e isso não seria novidade. O fato é que Maria causa mesmo uma estranheza inicial. Algo não combina entre o realizador de filmes como Vício Frenético, Invasores de Corpos e Os Chefões e esta obra de temática em aparência religiosa.

É verdade que a religião, em Maria, aparece como uma, digamos assim, manifestação em segundo grau, porque filtrada por uma dinâmica metacinematográfica – quer dizer, um ‘filme dentro do filme’. Bom esclarecer logo de saída: Juliette Binoche vive a atriz Marie Palesi. Ela interpreta o papel de Maria Madalena e contracena com Matthew Modine, diretor e ator principal de uma vida de Jesus. Mas a filmagem se complica e Maria é deixada em Jerusalém em plena crise mística. Há também um jornalista, Ted Younger (bem interpretado por Forest Whitaker), cético, que acompanha a busca espiritual de Maria e enfrenta suas próprias questões nesse terreno quando se depara com uma situação-limite: sua mulher e o bebê recém-nascido correm risco de vida.

Superada a tal da estranheza inicial, é bem possível viajar no filme e entender as motivações de Ferrara. Ele próprio um diretor terminal (no sentido da radicalidade), parece atravessar uma crise interminável em sua vida pessoal e na maneira como encara sua arte. Cada vez mais é difícil viver se você for um outsider. Cada vez mais é difícil filmar se os seus valores estéticos não obedecem aos padrões do mercado. Ferrara corre por fora nesses dois domínios. Seu cinema, que é a parte que nos interessa, é um modelo de exasperação, temática como formal. Ferrara é um inquieto.

E por que motivo um inquieto deveria se meter com religião? Bem, a resposta mais imediata seria: por isso mesmo. Em entrevista em Veneza, Ferrara, que é ítalo-americano, foi convidado a comentar o grande escândalo daquele momento, o filme A Paixão de Cristo, grande sucesso de Mel Gibson, que no entanto foi acusado de explorar o instinto sádico do espectador ao expor sem atenuantes todo o sofrimento físico de Jesus. ‘O filme dele deveria se chamar A Paixão do Dólar e não A Paixão de Cristo’, vergastou Ferrara, impiedoso como um centurião romano.

Talvez Maria seja a resposta de Ferrara ao oportunismo de Gibson. De certa maneira, ele propõe uma meditação nada sensacionalista sobre o mistério da fé em tempo tão laico como o nosso. E por que o nosso tempo seria laico se prolifera por aí toda uma indústria da fé, que vai da auto-ajuda mais rasteira à exploração do dízimo de gente que não tem o mínimo para a própria subsistência? Aí está: o nosso tempo não exclui as crenças, muito pelo contrário, mas não é verdadeiramente religioso. Era disso que se queixava Pasolini, que foi quem primeiro anteviu a sinuca existencial que a civilização se metia ao tornar-se uma sociedade de consumo.

Nesse mundo sem transcendência, as pessoas, carentes de fé e transformadas em mercadorias, ficaram expostas a todo o tipo de charlatanismo. Ferrara parece buscar uma saída para esse impasse, talvez por onde menos dele se esperasse – pelo caminho da revelação mística. Que esta se dê também de maneira bastante problemática e exasperada, é apenas uma manifestação de coerência da sua trajetória. E o fato de que esse caminho siga a trilha do cinema (pela encenação do ‘filme dentro do filme’) é testemunho da importância, para Ferrara e todos nós, dessa religião laica dos séculos 20 e 21 – que é o cinema.

(SERVIÇO)
Maria (Mary, Itália-França-EUA/2005, 87 min.) – Dir. Abel Ferrara. 14 anos. Cine Bombril 1 – 14 h, 18h10, 19h50, 21h50.Unibanco Arteplex 6 – 18h30, 20h20, 22h10 (sáb. também à 0 h). Cotação: Bom