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Marcas da Vida

Luiz Zanin Oricchio

05 Maio 2007 | 10h39

As câmeras de vigilância estão se tornando presença habitual no cotidiano das pessoas. ‘Sorria, você está sendo filmado’, elas nos avisam. São parte importante deste Marcas da Vida e estão também no nacional Não por Acaso, de Phillipe Barcinski, ainda inédito.

No escocês Marcas da Vida, a personagem que opera essas câmeras é Jackie (Kate Dickie) que, do seu monitor, espia e analisa o comportamento alheio, julgando o que pode ser perigoso para a sociedade. Quem busca às vezes acha o que não quer e assim Jackie acaba vendo um homem do seu passado com quem não desejaria encontrar-se jamais. Como ele apareceu na tela, o que fazer?

Há um ardil aí, uma história intrincada que vai apenas se tornar clara mais para perto do fim. Mantenhamos o mistério. Vale apenas indicar que a atuação de Kate Dickie parece bem convincente, naquele misto de amargura, que ninguém sabe de onde vem, e redenção, que ninguém sabe de onde virá. Há uma metafísica contemporânea expressa nessa prosaica profissão de vigilante do alheio, concessão que se faz ao Estado para parecermos mais seguros.

Há outro ardil montado por Jackie e que se parece muito próximo de um conto de Borges chamado Emma Zuns e questiona a mesma coisa que o filme de Andrea Arnold (disputou a Palma de Ouro em Cannes 2006). O dilema seria: deve-se deixar um culpado escapar só porque não existem provas contra ele? E, nesse caso, o certo não seria forjar provas de modo que o culpado fosse punido, mesmo que por outro crime e não aquele que cometeu? Essas são as perguntas desse filme denso e que não afrouxa a tensão jamais.